Exposição dialogada 5: Diversidade e raça na educação

A quinta exposição dialogada do curso foi conduzida pelo sociólogo Uvanderson Silva e tratou do tema “Diversidade e raça na educação”. Ao considerar a diferença entre raça e racismo, Uvanderson fez diálogo aberto com o/as participantes sobre como ocorre o impacto das relações raciais na política educacional. Nesta perspectiva, ele explicou que o indivíduo pode não ser racista, mas que possui raça e que, sendo assim, esta deve ser considerada em seu processo de aprendizagem.

De acordo com a ciência, a ideia de raça não existe e esta forma de classificação é  invenção da própria sociedade. “Ela [a raça] pode mudar conforme o contexto e variar até pelo tamanho do pé ou em relação à altura da pessoa. No Brasil, essa ideia orienta políticas e se dá, principalmente, pela diferença de tons de pele entre as pessoas”, afirma.

Para que a educação seja de fato democrática é necessário que ela se adapte às realidades dos/as alunos/as e às suas características (de gênero, étnicas, sexuais e religiosas, por exemplo). Neste sentido, Uvanderson afirma que, desde criança, aprendemos a não falar em raça, mas que acabamos sendo orientados por ela. “A discussão sobre relações raciais é uma das possibilidades que temos para construir uma educação que leve em conta o ponto de vista do aluno e do professor na educação em geral”, defende.

E o que você tem a ver com isso?

O expositor explica que a existência de raça, como construção social, não tem relação com a ocorrência ou não de práticas racistas e, ao passar a palavra aos/às participantes do curso se evidenciou que as relações raciais estão presentes no cotidiano de maior parte das pessoas e que influenciam diretamente as práticas educacionais. (Veja abaixo)

Uvanderson afirma que o ponto de partida para se debater sobre a questão racial dentro da escola é saber que todos/as, sem exceção, possuem raça. “Esta discussão não se refere à população negra, mas sim à toda organização da sociedade”, explica o sociólogo ao defender que não se deve olhar o/a negro/a na educação, mas analisar a educação a partir, também, da perspectiva dos/as negros/as.

Ser negro/a no Brasil não é fácil e cada pessoa deve em um primeiro momento, segundo o expositor deste sábado, perguntar-se como se posiciona em relação ao tema das relações raciais. Após a indignação com as desigualdades, é preciso dar outro passo para responder à questão: O que fazer para romper barreiras e preconceitos?

Para ele, além de políticas de inclusão (como a de cotas raciais em universidades), é preciso mudar a forma como a sociedade se estrutura. De acordo com o sociólogo, a realidade brasileira foi construída por série de instituições e até mesmo por intelectuais que associavam a imagem do/a negro/a à ideia de atraso, de inferioridade.

O número de vezes em que se é parado pela polícia na rua, a companhia constante de seguranças quando se entra em uma loja, a diferença entre brancos/as e negros/as nas escolas de ensino básico e nas universidades públicas. A desigualdade entre pessoas de raças diferentes fica evidente não só na distribuição de renda e nas condições para  formação educacional, mas também no imaginário e em ações políticas que se reproduzem em espaços sociais todos os dias.

Uvanderson afirma que uma das coisas mais sutis e perversas é que “ser branco no Brasil é tido como natural, enquanto outra parte da sociedade tem que se identificar e dizer para quê veio. Ignora-se que ser branco é ser privilegiado e o quão complicado é construir uma identidade negra no Brasil”. Esta identidade, para ele, tem face dupla: ao mesmo tempo em que ela é politicamente importante – tendo que ser constantemente reformulada -, deve-se saber que ser negro/a no Brasil é ter a consciência das experiências que já terá que enfrentar, a priori, submetido a desigualdades culturais e educacionais.

 

Isso, aquilo e aquilo outro

Em segundo momento, Uvanderson exibiu aos/às participantes o documentário “Isso, aquilo e aquilo outro”, dirigido por Miriam Chnaiderman e lançado em 2005. Ao discutir sobre diferenças sociais com enfoque na questão racial, o filme traz debate com discursos de distintas perspectivas (étnicas, sexuais e de gênero) e a partir de temas polêmicos como o comportamento policial, a inclusão de negros/as no mercado de trabalho, a construção da identidade étnica no Brasil e o processo de formação de crianças e adolescentes no ambiente escolar, entre outros.

Embora existam inúmeras desigualdades, a maneira de enfrentá-las não é a mesma e o indivíduo possui legitimidade e autonomia para lutar por suas causas em específico. “Um argumento contra a lei 10.639 é que ela não atende às reivindicações dos demais grupos. No entanto, a lei é apenas o resultado da defesa pela igualdade de direitos independente de etnia ou raça e por esse registro em nossa história. Temos que lembrar que o racismo traz danos para a construção de identidade tanto do/a negro/a quanto do/a branco/a”, afirma.

Um dos temas mais polêmicos quando se trata de políticas de inclusão, a cota racial para ensino superior, gera resistência diante do grande número de pessoas de baixa renda (negros/as e brancos/as) excluídas da formação universitária. Neste contexto, Uvanderson explica que, “por mais que as políticas públicas para pobres tenha aumentado, comparativamente os/as brancos/as se beneficiaram muito mais neste processo”.

De acordo com ele, as políticas universais não são suficientes para resolver a desigualdade racial. “A questão das cotas está relacionada com a distribuição ou não de recursos. O problema não é, necessariamente, a entrada na universidade, e sim por ela ser um dos caminhos de acesso à classe média”, diz o sociólogo. Para Uvanderson, deve-se pensar também em estratégias de inclusão na educação básica de ensino onde os índices de repetência e evasão continuam reproduzindo a mesma lógica de exclusão racial.

Leia textos recomendados por Uvanderson Silva:

- Resenha do livro Preconceito racial: modos, temas e tempos

- Construção Sociológica da Raça

 

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