“O outro e suas características servem para nos completar e nos fazer refletir sobre nós mesmos”, defende Renato Almeida em curso na Fundação Casa

O antropólogo Renato Almeida faz explanação sobre “Cultura e Direitos Humanos” para gestores da Fundação Casa

 

As ações de promover ou violar os direitos humanos ocorrem sempre em determinado contexto cultural e, desta forma, se diferenciam conforme as tradições e características de um povo, seus valores, suas práticas e seus patrimônios materiais e espirituais.
Em sua apresentação na Escola para Formação e Capacitação da Fundação CASA no último dia 7 de agosto, o mestre em antropologia, Renato Almeida, explicou que o comportamento humano reflete a cultura e os costumes do local onde se está inserido.

Desde crianças somos bombardeados com imagens, manias, gestos e valores. Apesar da formação cultural de cada indivíduo, Renato explica que é possível alterar a percepção do que cada um julga como certo ou errado independentemente de sua idade, origem ou momento de vida. “Dificilmente as pessoas demonstram de forma explícita que estão sofrendo mudanças e, antes de querer modificar o outro, nós temos que entender a importância de nossa diversidade cultural”, diz.

Partindo do princípio de que não existe uma só maneira de conceber o mundo e de que não há uma cultura melhor do que a outra, o antropólogo afirma que, muito mais do que um problema cultural, a criminalidade é resultado de um contexto político e socioeconômico. “Muitos justificam o aumento da violência urbana em São Paulo em decorrência da intensa migração de outros estados nos anos 1970 e 1980. No entanto, a realidade é que a maioria destas pessoas veio de contexto mais tranquilo e só quando chegaram aqui tiveram contato com a violência e com o tráfico,” esclarece Renato.

Em um ambiente como o da Fundação Casa, de acordo com ele, todos/as pertencem a uma mesma dinâmica cultural e não se deve promover o distanciamento entre educadores/as e educandos/as. Para o antropólogo, é esse afastamento em relação ao ponto de vista do outro que acaba produzindo uma sociedade desigual.

 

O diferente

“O outro e suas características servem para nos completar e nos fazer refletir sobre nós mesmos. Há tendência em se naturalizar a cultura que temos como se tudo que fazemos fosse normal, mas é importante lembrar que ela se transforma cotidianamente”, alerta Renato. Um dos exemplos desta mudança, segundo ele, ocorre ao se comparar a imagem da mulher nos anos 1960 e atualmente no que se refere ao modo de se vestir e ao comportamento que assume diante da sociedade.

Ao tratar da relação entre a formação cultural de nossa sociedade e os direitos humanos, o professor explica que o machismo e o preconceito étnico-racial, por exemplo, fazem com que se perpetue uma realidade em que se privilegia o sexo masculino e em que se condena a população negra. “Hoje há um verdadeiro genocídio da juventude negra provocado pela polícia e acabou se formando um racismo a brasileira: aceita-se o convívio entre negros e brancos, as amizades e o discurso apaziguador contanto que cada um ocupe o seu ‘devido lugar’”, explica.

Renato exemplifica este entendimento preconceituoso a partir das críticas quanto as cotas raciais em universidades públicas. “Nós temos que entender que vivemos em sociedade desigual que exige alternativas e mecanismos para que a igualdade aconteça. As cotas não resolvem todo o problema, mas contribui, inclusive, para uma transformação cultural”.

 

Por que promover ações culturais com adolescentes?

De acordo com Renato, a juventude passou a ser representada no Brasil a partir do movimento de contracultura intensificado na década de 1960. Como resultado deste movimento, observou-se no país a ascensão do hip hop e a adesão de jovens ao estilo Black Power em combate à desigualdade social e ao racismo.

“Na grande maioria das vezes as atitudes da juventude trazem uma mensagem cultural e trabalhar com estas ações contribui para que eles/as [os/as jovens] se percebam no mundo e para que sejam reconhecidos/as socialmente”, explica o antropólogo ao lembrar que as iniciativas culturais sempre foram consideradas de menor importância até mesmo por movimentos sociais e partidários.

A importância da cultura, segundo ele, se confirma para além da ideia de evitar com que grupos de jovens fiquem nas ruas e que cometam infrações. “A cultura tem que ser entendida como direito do/a jovem existir, se expressar, experimentar e conhecer outras realidades. A cultura fortalece a sua identidade e cria condições para que haja transformações na vida de cada jovem”, defende Renato.

 

 

 

 

 

Foto de Aline Assis

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