Relações Raciais: identidades negras, branquitude e pertencimento racial

Redefinir a questão racial, atribuindo-lhe o lugar das experiências cotidianas e pensar como o olhar do outro influencia a concepção dos indivíduos, estes foram os desafios do segundo encontro do curso Educação, Relações Raciais e Direitos Humanos, que trouxe ao debate os temas identidades negras, branquitude e pertencimento racial.

A psicóloga e psicoterapeuta Maria Lúcia da Silva, do Instituto AMMA Psique e Negritude, iniciou o dia propondo uma vivência. Afastando-se da prática de teorização da temática racial, os/as participantes puderam pensar nas suas experiências relacionadas à discriminação. “Em um grupo diverso – composto por brancos, negros, homens e mulheres – nós pudemos perceber que as humilhações foram de toda ordem, do ponto de vista do gênero, racial, de condição social, ou porte físico. Constatamos coletivamente também que não existe diferença no impacto das discriminações, pois qualquer que seja a ordem todas produzem dor, afetam o nosso corpo e nossa emoção”, comenta a psicoterapeuta.

Na etapa seguinte, a partir desta experiência coletiva, os/as alunos/as passaram a discutir o racismo numa perspectiva social, enquanto processo de desenvolvimento do sujeito negro, que imerso em uma ideologia racista, interioriza a imagem de inferioridade contra ele forjada. Neste cenário, Maria Lucia explica que esta falta de reconhecimento da identidade provoca problemas na sua própria percepção enquanto indivíduo e na identificação com seus iguais.

“Devemos pensar naquela criança que desde os seus primeiros anos até a vida adulta vive cotidianamente a discriminação. Quais são os impactos em sua vida pessoal? Como isso afeta seu corpo, suas emoções? Inseridas em uma cultura racista, o que você vai encontrar – seja nos meios de comunicação, seja nos livros didáticos – é a ideia de que aquele sujeito é menos. O conceito de superioridade vai passando nas relações entre os sujeitos desde o nascimento”, ressalta.

Ela destaca a importância da criação de espaços que viabilizem o compartilhamento desta dor gerada pelo racismo, de forma que as vítimas possam sair do lugar da solidão e se sintam acolhidas, fortalecidas o suficiente para se distanciarem de concepções individuais tão autodepreciadas e que são capazes de criar um ódio paralisante em relação a sua identidade racial.

Estética negra: o cabelo, a síntese da construção identitária

Representando algo distinto de si mesmo, o cabelo do/a negro/a adquiriu um significado social, cultural e político importante para a compreensão do lugar dessa população na complexa estrutura da sociedade brasileira. Pensado pela cultura, ele se tornou um ícone fundamental na construção da identidade negra, ou seja, na maneira como o negro se vê e é visto pelo outro.

Durante a “Oficina Estética e Cabelo Afro”, Ivanilda Amado, pesquisadora da área de educação das relações étnicos raciais, chama a atenção para como o cabelo crespo ainda é visto como marca de inferioridade e tem sido alvo de insatisfação, principalmente das mulheres negras. “A depender dos espaços, considerando o contexto no qual o racismo relega o negro à exclusão, ser branco é ter a possibilidade de gozar de privilégios. Vejam como alisar o cabelo pode ganhar novos contornos: se eu sou parda e tenho meus cabelos lisos, posso negociar minha branquitude e sair do lugar da inferioridade”, salienta.

Após a exibição do filme “Espelho, Espelho Meu!!”- um documentário sobre representações afro-estéticas no período juvenil-  Ivanilda reforça o conceito de identidade trabalhado no vídeo pelo historiador Antonio Cosme, que  a  define como sendo algo construído na alteridade, ou seja, na relação com outro. Segundo Antonio, é a partir da sua auto-imagem que os indivíduos se posicionam socialmente e os/as negros/as são educados/as a não gostar do que são desde muito cedo. Justamente quando a criança está construindo suas bases psicológicas, ela já começa introjetar valores negativos.

Ela finaliza destacando o papel da escola, enquanto instituição, nesse processo de ressignificação da estética corporal negra. “Os professores devem trabalhar com as diferenças, aceitando a existência do racismo e enfrentando as experiências de humilhação que as crianças negras sofrem por meio do acolhimento, valorização dos elementos afrodescendentes e do resgate histórico positivado dessas comunidades”, completa.

Mudando realidades: o racismo na comunidade escolar

O sociólogo Uvanderson Silva começa a sua explanação afirmando que o ponto de partida para discutir a questão racial é saber que todos/as possuem uma raça e que este assunto se refere a negros e brancos. “No caso da educação, por exemplo, devemos analisá-la a partir da perspectiva do negro. Esta é uma das premissas da construção de uma educação antirracista”, reforça.

De acordo com Uvanderson, os/as professores/as devem ter forte a noção de que ser negro no Brasil não é fácil e que as demandas desta população dependem de um enfrentamento que questione as estruturas sociais e construam políticas de inclusão, definindo pautas específicas no combate às desigualdades.

Para ele, “uma das coisas mais sutis e perversas é que ser branco no Brasil é tido como natural, enquanto outra parte da sociedade tem que se identificar e dizer para quê veio. Ignora-se que ser branco é ser privilegiado e o quão complicado é construir uma identidade negra no Brasil”.

Neste ponto, Uvanderson traz a discussão sobre o quesito raça/cor como um dos aspectos a ser avaliado para construção de ações afirmativas que mitiguem o impacto negativo do racismo nas relações sociais. “Ao pensar ações afirmativas não podemos nos esquecer de que há uma disputa política em torno da identidade, porque construir políticas que atendam pretos/as e pardos/as tem como pano de fundo realidades que, embora esbarrem na questão mestiçagem, são similares no que tange exclusão e estão mais distantes da tonalidade da pele. A categoria negro está diretamente ligada à auto-declaração, em outras palavras, ligada a histórias de vida e a formas de se perceber no mundo”, conclui.

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