Cultura juvenil como oportunidade para a construção da autonomia, com Alexandre Pereira

Música alta, pichações, grafite, alta velocidade no trânsito e intempestividade são alguns dos comportamentos ou das atitudes relacionadas à transgressão de padrões e costumes consolidados e, comumente, atrelados à cultura do/a jovem. Mas qual é o olhar que relaciona este grupo de pessoas a tais transgressões? Quais são as principais características das chamadas culturas juvenis? E como a sociedade lida ou não com estas culturas?

O antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Alexandre Pereira, ministra a terceira aula do curso de direitos humanos para gestores/as da Fundação Casa e traz reflexão sobre algumas destas questões. “Existem duas correntes das ciências sociais sobre a noção de juventude como período de desajuste, de desvio: a geracional, que acredita que os jovens atuais não estariam adaptados aos valores das gerações anteriores, e a classista, que acredita que o jovem não está incluído nas classes dominantes”, explica.

O professor mostra exemplos de cultura juvenil com papel de transgressão aos padrões formais e defende que esta cultura deve ser analisada considerando as diferentes características de cada um/a deles/as no que se refere à classe social, gênero, raça, etnicidade, orientação sexual, idade, geração, território (centro ou periferia, urbano ou rural, por exemplo) e religião.

Mas quando começa e quando termina a juventude? Além de classificações oficiais que tendem a relacionar dentro deste grupo pessoas entre 15 e 29 anos, Alexandre ressalta que existem alguns ritos de passagem característicos dos/as jovens. Além do batismo em algumas religiões e do alistamento militar, o professor destaca o processo de escolarização como um “ritual” da maior parte da juventude brasileira. “Os anos na escola é um período de ‘docilização’ do corpo e ocorre como preparação para o trabalho, além de servir para caracterizar a juventude como uma fase destacada do restante da vida”, diz.

Neste contexto, o antropólogo afirma que, bem como a escola, outras instituições como a igreja, a família e, principalmente, a mídia, criam modelos de jovens para então poder inseri-los na lógica do consumo. A partir disso, surgiriam as chamadas culturas juvenis.

 

Entender a juventude

Para entender o/a jovem, de acordo com Alexandre, é necessário não só pensar nele/a como indivíduo, mas compreender o modelo de sociedade, as culturas e os objetos de consumo que estão relacionados a ele/a.

“A condição de juventude se manifesta de forma diversa e desigual e surge a partir da interação entre fatores sociais e biológicos”, defende o antropólogo ao citar duas perspectivas que orientam a ideia de juventude: a vital, que trata a morte como distante e a proximidade do risco como algo positivo (skate, paraquedas) ou negativo (crime e ilegalidade), e a social, que é dividida de forma desigual e que relaciona o/a jovem à pessoa que frequenta festas caras, que tem tempo livre e que vai à academia, por exemplo.

Ao detalhar a perspectiva social, ele explica que ela cria a diferença entre os/as que seriam jovens-juvenis e os/as jovens-não-juvenis. “Os/as juvenis são os/as que fazem parte de uma minoria que se enquadra neste ideal de juventude com grande possibilidade de consumo, e os/as não-juvenis são os/as que não vivem o significado e o status quo vendido pela mídia”, explica.

Atrelados ao consumo, a cultura e os estilos desses/as jovens passariam a estar relacionados à forma como gastam seu dinheiro, podendo expandir seus meios de convivência. De acordo com o professor, este consumo se reflete, também, por meio de expressões artísticas e musicais. “A arte não é um antídoto para a violência, mas sim um direito de todos os/as jovens. A pichação representa, entre outras coisas, a conquista de status, uma transgressão e até mesmo a criação de uma rede de contatos”, exemplifica.

 

Arte como autonomia e possibilidade

Ao compreender que as culturas da juventude são diversas e múltiplas, Alexandre explica que manifestações por meio de festas, do hip hop, do grafite e da pichação, por exemplo, se estabelecem como forma de manter relativa autonomia às instituições “adultas” já instituídas.

De acordo com o antropólogo, um dos maiores desafios é fazer com que o/a jovem encontre alternativas que não estejam relacionadas ao imediatismo característico do crime e do consumo. “Temos que aproveitar as culturas juvenis no sentido de contribuir para que o/a jovem tenha um projeto de vida e possa ser protagonista da própria história sem ter que buscar essa autonomia por meios ilícitos”, conclui.

 

Imagem: Flikr Textundblog/Bansky

 

Faça o download da aula Cultura Juvenil

 

 

 

 

1 comentário neste postEnvie
  1. Por que será que a violência explodiu na periferia de São Paulo, com milhares de mortos em execuções sumárias nos becos e vielas, não no período da ditadura militar ou durante as décadas anteriores, mas precisamente depois que a intelectualidade de esquerda gritava na mídia que “a causa da criminalidade é a desigualdade social”? É engraçado que todas as pessoas muito pobres que eu conheço, apegadas a valores morais rígidos derivados da religião cristã, não praticam depredações, muito menos crimes hediondos. Mas todo bandido, quando é preso, sabe os seus direitos melhor que qualquer advogado criminalista. “Adolescentes em confronto com a lei” é só o modo poético que a esquerda moradora de condomínios usa para denominar BANDIDOS POR ESCOLHA IMORAL.

Envie seu comentário

Por favor, informe seu nome

Nome é obrigatório

Por favor, insira um email válido

Email obrigatório

Por favor, insira sua mensagem

Formação em Direitos Humanos © 2014 Todos os direitos reservados

Design de WPSHOWER