“Cultura de Paz”, por Hamilton Faria e Martha Lemos

“Nunca devemos dizer que uma situação de violência é normal, pois assim ela passará a ser imutável”

 

 

“Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho”. Quantas vezes você já ouviu essa frase atribuída ao advogado e líder do movimento de independência indiana, Mahatma Gandhi?  A adoção da teoria da não violência foi um dos fundamentos que tornaram Gandhi conhecido em todo o mundo e que até hoje se consolida em movimentos humanitários e de defesa dos direitos humanos.

A ideia de que a paz deve ser construída cotidianamente e que, desta forma, não existe um processo a ser seguido para alcançá-la é, também, um dos fundamentos da Cultura de Paz, tema da quarta aula dada no curso de Direitos Humanos e Adolescentes em Conflito com a Lei.

Conduzida por Hamilton Faria e Martha Lemos, respectivamente diretor de cultura e arte educadora do Instituto Pólis, a exposição do último dia 14 de agosto tratou de valores relacionados à ideia de paz e, em contraposição, à formação do conceito de violência.

Neste sentido, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), “a paz baseada exclusivamente nos arranjos políticos e econômicos dos governos não seria uma paz que pudesse conquistar o apoio sincero, unânime e duradouro dos povos do mundo, e por esse motivo, para que perdure, a paz deve ser fundada sobre a solidariedade moral e intelectual da humanidade”.

De acordo com Hamilton, a paz está relacionada não só a valores e posses, mas às condições sociais, culturais e estruturais de uma sociedade, por isso, “o conceito de violência não está apenas em relações diretas, de uma para outra pessoa, mas acontece de forma estrutural e cultural, como nos casos de alto índice de desigualdade social no Brasil e dos preconceitos étnicos, por exemplo”.

Ao dar perspectiva histórica, Hamilton cita o Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e da Não-violência (UNESCO) que foi assinado por grandes líderes mundiais e que ampliou o conceito de paz, relacionando-o até mesmo à ideia de generosidade. A partir deste conceito, ele explica que o Manifesto se fundamenta em seis princípios:

- Respeitar a Vida: Respeitar a vida e a dignidade de cada pessoa, sem discriminação ou preconceito;

- Rejeitar a Violência: Praticar a não-violência ativa, rejeitando a violência sob todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social, em particular contra os grupos mais desprovidos e vulneráveis como as crianças e os/as adolescentes;

- Ser Generoso/a: Compartilhar o meu tempo e meus recursos materiais em um espírito de generosidade visando o fim da exclusão, da injustiça e da opressão política e econômica;

- Ouvir Para Compreender: Defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, dando sempre preferência ao diálogo e a escuta do que ao fanatismo, a difamação e a rejeição do outro;

- Preservar o Planeta: Promover um comportamento de consumo que seja responsável e práticas de desenvolvimento que respeitem todas as formas de vida e preservem o equilíbrio da natureza no planeta;

- Redescobrir a Solidariedade: Contribuir para o desenvolvimento da minha comunidade, com a ampla participação da mulher e o respeito pelos princípios democráticos, de modo a construir juntos novas formas de solidariedade.

 

Como se todos fizessem com a gente

É possível que todas as pessoas já tenham se deparado com alguma circunstância de violência, com experiências de injustiça, de desigualdade ou de preconceito. No contexto brasileiro, por exemplo, não são raros os momentos de violência tanto entre indivíduos, quanto da própria sociedade contra grupos minoritários ou não representados nos órgãos de poder.

Diante do contato recorrente das pessoas com situações de violência quer seja no seu cotidiano, quer seja por meio da mídia, Hamilton alerta para o cuidado com o que chama de “síndrome da normose”. “A normose faz com que tomemos as coisas como naturais, sendo que, na maioria das vezes, não o são. Nunca devemos dizer que algo ou uma situação de violência é normal, pois assim ela passará a ser imutável”, explica.

O diretor de cultura do Instituto Pólis alerta para a relação que, em geral, temos com a noção de paz. “Sempre culpamos a sociedade como se não fizéssemos parte dela e é exatamente neste sentido que entra a Cultura de Paz: é uma cultura que se inicia dentro de cada um de nós. Como dizia John Lennon, o sonho acabou e parece que as pessoas não podem mais sonhar. Mas não podemos deixar de sonhar”, defende de forma incisiva.

Ao destacar que todos/as devem contribuir para o fortalecimento de uma cultura de paz, Martha reforça a necessidade de não se esconder situações de confronto. “Somente se evidenciarmos os conflitos é que conseguiremos transformá-los. A cultura de paz é muito pouco falada e vivê-la é um desafio ainda maior”, diz a arte educadora.

 

Os dois polos da paz

De acordo com Hamilton e Martha é importante saber a diferença entre paz negativa e paz positiva. Entre os exemplos citados, evidenciou-se que na paz negativa a “responsabilidade é unicamente dos Estados, que é justificável o uso da violência para alcançá-la e que ela se baseia diante da perspectiva de abafar e apagar conflitos”. Já a paz positiva, segundo eles, se refere a todos os âmbitos da vida incluindo o pessoal e o interpessoal, deve ser alcançada por meio de um processo contínuo e em que o conflito só seria visto como prejudicial se fosse regulado por ações violentas.

Paz, de acordo com Martha, define-se a partir da “ausência de todo tipo de violência – direta, cultural e estrutural – e com a presença de justiça social e das condições necessárias para que exista”. A cultura de paz, neste sentido, “é outro paradigma para pensar o mundo, a vida e seu cotidiano e as relações com os outros. É um modo de pensar e agir que rejeita a violência e valoriza a diversidade, o diálogo, a negociação e a mediação como estratégias para a resolução dos problemas”.

 

E na prática?

Por ser pouco difundida, pode haver a impressão de que a cultura de paz é um objeto inatingível em nossa sociedade repleta de ações violentas e com o estímulo cada vez maior à concorrência entre as pessoas. Como alternativa para colocá-la em prática, Hamilton destaca a necessidade de olhar as carências de cada um a partir de suas potências vitais.

Para este fortalecimento, ele afirma que há quatro formas possíveis para estabelecer a diversidade dos atores e o diálogo com resolução pacífica de conflitos: trabalho em rede, mediação de conflito, terapia comunitária e justiça restaurativa.

Ao término da aula, Martha relembra os principais desafios para que todos/as possam contribuir com a melhoria da sociedade por meio da cultura de paz. “Temos que multiplicar o nosso aprendizado, desnaturalizar a violência, ser instrumento e ponto de partida para que a situação melhore no futuro, conseguir ouvir, preservar a natureza, redescobrir a solidariedade e rejeitar a violência”, enumera a educadora.

 

 

Faça Download da Apresentação – Cidadania e Cultura de Paz

 

Foto: Flikr.com gabi.idealli / “Guerra e Paz” – Portinari

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