Currículos e práticas pedagógicas no contexto da implementação da lei 10.639/2003

Resultado da luta dos movimentos sociais negros pela democratização da educação, a lei 10.639 – que instituiu a obrigatoriedade do ensino da História da África e dos Africanos na educação básica – provoca muito mais do que a inclusão de uma nova disciplina no currículo escolar, ela exige a mudança de representações e práticas adotadas, durante séculos, em um contexto de ampla dominação e colonização.

Diante de tal cenário, educadores/as tem como desafio articular a teoria educacional com o cotidiano escolar e então construir um currículo capaz de lidar com a diversidade e desigualdades características da sociedade brasileira.

Para refletir sobre as tensões geradas pela implementação da lei 10.639, bem como sobre as transformações no que se refere ao trato da questão étnico-racial na escola, o curso Educação, Relações Raciais e Direitos Humanos apresentou algumas experiências sobre a temática em questão.

Vera Lúcia Benedito: Como lidar com a grade currícular em um contexto social discriminatório?

Para explicar como a escola não escapa das práticas pedagógicas discriminatórias, a professora doutora em Sociologia e Estudos Urbanos, Vera Lúcia Benedito, compartilhou sua experiência em uma unidade da Prefeitura de São Paulo, onde, como professora de inglês, iniciou um projeto de relações étnico-raciais neste ano (2012).

A iniciativa faz parte do Programa Ampliar – projeto que desenvolve atividades curriculares de recuperação de aprendizagem, bem como atividades de cunho social, esportivo ou cultural nos contraturnos das escolas municipais – e tem como objetivo formar crianças, entre 10 a 14 anos, em História Africana e Afro-brasileira.

Vera chama atenção para o grande interesse demonstrado pelos/as alunos/as ao serem convidados/as para participar do curso. Contudo, este entusiasmo não se refletiu nos primeiros dias da capacitação, pois havia um número muito pequeno de crianças presentes.

“Enviamos umas 40 autorizações, quase todas as crianças pediram para participar. Não fazia sentido o interesse imediato e posteriormente essa desistência em massa. Logo identifiquei algo errado e procurei ver mais de perto o que estava acontecendo. Foi quando em conversas com os/as meninos/as percebi que muitas famílias oriundas de específicas orientações religiosas impediram a participação de seus/suas filhos/as por acharem que estudar História Africana e Afro-brasileira tinha vínculo com ‘macumba’, trazendo toda a percepção negativa que se têm das religiões de matrizes africanas.”, conta.

Ela comenta que a solução encontrada foi a mudança do nome do curso, que passou a se chamar Diversidade e Cidadania. Nas semanas seguintes, as crianças retornaram à formação. Com este exemplo, Vera destaca a importância do diálogo entre a escola e a família na construção de um currículo anti-racista.

“Os/as professores/as precisam ser sensíveis às demandas dessas culturas silenciadas. Há um processo de hierarquização de conhecimentos que precisa ser superado e o primeiro passo está no debate, no ato de se falar de alguns mitos, de experimentar a dor para superá-la. Definitivamente, precisamos da malandragem para driblar preconceitos e aos poucos introduzir a cultura afro-brasileira, torná-la uma agenda consolidada”, salienta.

Vera reforça a importância de afastar dos planos de aulas o que chama de “Cidadania Lúdica”, termo cunhado pela professora e ex-vereadora Jurema Batista, que consiste na redução da identidade do/a negro/a aos campos do esporte, do ritmo, do carnaval e da culinária. De acordo com esta definição, o/a afro-brasileiro/a é entendido enquanto coletividade, subliminarmente excluído das esferas política, econômica, tecnológica, científica e, em outras palavras, da cidadania produtiva e do protagonismo social.

Segundo a professora, para a maioria da população “descendente de negro era associado a escravo, heróis ou heroínas não existem. O lugar social do negro não permite que enxerguemos inúmeros grupos com pesos sociais de norte a sul, de leste a oeste, que construíram esse país não só enquanto escravizados, mas como políticos, como professores, em todas as esferas profissionais”.

Vera aponta para algumas possibilidades de trabalhar a temática africana e afro-brasileira em uma abordagem afirmativa, tratada em perspectiva positiva. Como por exemplo:

- Na América Latina, o Brasil era o país que tinha o maior número de pessoas não-brancas livres. Figuras ilustres como Luís Gama e André Rebouças são ícones que contribuem para valorização da história afro-brasileira e colaboram para o reconhecimento de crianças e jovens negros de sua identidade;

- Ao falar da escravidão pode se mencionar o conhecimento dos escravizados, em sua maioria especializados em metalurgia e madeira. Como, no caso, de grupos específicos de sudaneses, cuja habilidade na prospecção de metais foi fundamental para exploração do ouro no país.

- A participação do/a negro/a no século XXI é importante para aproximar da realidade escolar a presença desse grupo. Identificar grandes nomes, movimentos sociais é uma etapa fundamental.

Para Vera “o resgate da riquíssima história dos povos africanos, repleta de inovações científico-tecnológicas , sociais, políticas, intelectuais, ajuda a reconstruir a imagem da participação digna e ativa em todas as dimensões da experiência humana, esboçando as possibilidades para seus descendentes nas Américas”.

Entre os desafios, Vera ressalta a morosidade na adoção sistemática e ampla da Lei nº 10.639/03 em todo território nacional. As resistências estruturais e não estruturais são imensas. Entre alguns fatores de extrema importância, em sua opinião, estão os estudos voltados para uma educação antiracista, os quais têm chamado a atenção dos/as educadores/as para o cotidiano escolar, onde as injúrias psicológicas e emocionais do racismo continuam a vitimar crianças, jovens e adolescentes oriundos/as de todos os grupos e segmentos sociais.

Algumas imagens e muita história!

Para exemplificar a importância dada pelo movimento negro à educação durante os séculos, a professora Vera Lucia Benedito compartilhou algumas imagens que reforçam o lugar central do ensino para essas organizações:

Diretores e Alunos do Instituto Profissional Souza Aguiar, 31.07.1908.
Fonte: Maria Lúcia Rodrigues Muller. A Cor da Escola: Imagens da Primeira República. Cuiabá: EDUFMT/Entrelinhas, 2008:18.

Diretora, vice-diretora e professores da Escola Menezes Vieira (RJ), 30.11.1914.
Fonte: Maria Lúcia Rodrigues Müller. A Cor da Escola: Imagens da Primeira República. Cuiabá: EDUFMT/Entrelinhas, 2008:18.

ESCOLA DA FRENTE NEGRA BRASILEIRA – DÉCADA DE 1930.
Fonte: Frente Negra Brasileira: Depoimentos. Marcio Barbosa. São Paulo, 1988

ESCOLA DA FRENTE NEGRA DÉCADA DE 1930.
Fonte: Frente Negra Brasileira: Depoimentos. Marcio Barbosa. São Paulo, 1988

Ana Lúcia Silva e Souza: Letramento, Relações Raciais e Hip Hop no currículo e cotidiano escolar

Quando o tema é letramento muitas vezes a associação imediata é feita em relação ao universo da alfabetização, no qual as habilidades de leitura e escrita são centrais. A professora doutora em linguística, Ana Lúcia Silva e Souza, explica que este processo é natural, sobretudo, por conta das reformas educacionais ocorridas no país no início do século XX.

“A ideia era apagar os traços da escravidão e da colonização e a escola foi eleita como a instituição capaz de sustentar as transformações necessárias de uma sociedade que estava se modernizando. Neste contexto, o letramento escolar passou a ser destaque, em detrimento da oralidade e saberes tradicionais de populações, como indígenas e negras”, comenta.

Diante deste cenário, Ana Lúcia convida os/as presentes a ampliarem os seus olhares sobre o conceito de letramento que, em sua opinião, deve ser trabalhado no plural, dentro de uma perspectiva múltipla e historicamente situada. Para ela, letramento é prática social, cuja construção pode se dar em esferas institucionalizadas, como a escola, ou em espaços de aprendizagens em distintas dimensões do cotidiano.

“Como explicar que a minha vó, que não era alfabetizada, conseguiu me ensinar um monte de coisas? Como aquele jovem que não consegue interpretar um texto em sala de aula, fora dali consegue escrever uma letra de rap, grafitar um muro e dialogar com seus pares por meio da fala, dos gestos e de suas roupas? Dá para falar que essas pessoas não são letradas? A escola está diante de diferentes culturas que nunca conseguiu lidar, mas que não podem mais serem silenciadas.”, salienta a professora.

A partir deste diagnóstico, elaborado em sua pesquisa com jovens ativistas do movimento hip hop, Ana Lúcia criou o conceito de Letramento de reexistência, apontado como uma reinvenção do uso da linguagem que, ao fazer referência às matrizes culturais historicamente negadas, é marcada pelo esforço do auto-reconhecimento, desenvolvido de diferentes maneiras e formatos.

“O ponto principal do letramento de reexistência está nas formas de micro-resistência cotidiana. Os ativistas do hip hop ao beberem da fonte do movimento negro lá do início do século, adaptaram, recriaram, inventaram táticas e estratégias de subversões que permitiram driblar as barreiras em busca de uma educação emancipadora e a desigualdade de inserção da população negra no universo escolar”.

Nesse sentido, uma das marcas do universo hip hop está em sua capacidade de mesclar diferentes linguagens (orais, verbais e imagéticas) sem hierarquizações que desvalorizem as práticas educativas da escola. O que ocorre é uma apropriação de tais técnicas com vistas combater discursos excludentes cristalizados nestas realidades. Por meio da cultura hip hop, ressalta Ana Lúcia, os/as jovens assumem novos papéis e contribuem para o enfrentamento e superação do racismo, valorizando a oralidade, a arte e a corporeidade tão presentes na cultura africana e afro-brasileira.

“Observe o vasto campo de atuação que o hip hop abre para a nossa gente. É importante que essa discussão se amplie porque nós precisamos repensar a formação de professores, quais materiais vamos levar pra sala de aula e quem são esses sujeitos e como essas histórias estão nesses lugares. Os/as jovens negros/as definidos como não letrados, já carregam letramento em seu corpo. Pensar em letramento de reexistência significa nós abrirmos nossos baús e trazermos as nossas histórias. Pra isso, evidentemente nós vamos ter um trabalho de convencer a academia que a nossa história é ciência, esse é o grande barato. Nós não estamos brincando, estamos construindo e reconstruindo nosso percurso cientificamente. E isso é disputa, não tenho nenhuma dúvida quanto a isso.”, conclui.

MCs, DJs, Grafite e Dança: As linguagens da cultura hip hop

A cultura hip hop está materializada nessas quatro figuras do MC, DJ, grafiteiros e dançarinos. A professora Ana Lúcia traz algumas definições que podem colaborar no desenvolvimento de atividades a serem trabalhadas em sala de aula.

MC

É o mestre de cerimônia, o portador da mensagem. É quem declama e canta a poesia, usa a voz para falar do cotidiano e apresentar o contexto cultural e social de sua realidade. Suas letras geralmente tem sua autoria.

DJ

A arte de ser disc-jóquei está em elaborar as composições sonoras que colocam em diálogo sons diversos, colados e remontados. Sua função está em criar e sustentar a cadência no ambiente.

B-boy ou B-girl

Por meio da corporeidade e musicalidade afirmam sua identidade. As performances mostram flexibilidade e representam formas de criar e manter a sociabilidade típicas dos valores civilizatórios africanos.

Grafite

É um texto multissemiótico, que mescla o verbal e o não verbal, com diferentes técnicas e estilos para interferir na paisagem urbana. O hip hop é a forma do grafiteiro pintar temáticas que sejam significativas no momento em que se vive.

 

Eliane Costa: África e suas africanidades em diálogo com a educação matemática

Para os/as docentes que tem dificuldades em aplicar em sala de aula determinado conteúdos vinculados a lei 10.639/2003, a professora doutora em educação, Eliane Costa, trouxe a perspectiva da etnomatemática como uma alternativa mais adequada a diversidade que caracteriza das realidades socioculturais brasileiras.

Longe de ser uma proposta que nega a dita matemática “formal”, a etnomatemática propõe uma metodologia inclusiva, pautada em uma dimensão social, que reconhece as produções de conhecimentos matemáticos de todas as culturas, afastando a hierarquização habitual dos currículos nos quais prevalecem o legado do modelo educacional eurocêntrico.

“Não é de admirar que a cultura africana não esteja presente nas salas de aula, o currículo sempre esteve pautado em que detém o poder. Por isto a minha escolha em trabalhar com a etnomatemática como forma de apagar o estigma da disciplina, aproximar as crianças por meio de uma linguagem simples, quase intuitiva, sempre ligada a experiência de vida dos sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem”, comenta.

A abordagem adotada por Eliane trabalha com as ideias matemáticas que estão inseridas na cultura africana de tecidos de Gana, conhecidos como Kente. Sua proposta tem como desafio refletir como as múltiplas possibilidades e conhecimentos embutidos nesse fazer africano – que vai da armação dos teares, ao pensar as padronagens, coser, medir e costurar – podem ser transformados em situações de aprendizagem.

“Por meio dos tecidos de Gana precebemos muitas coisas. A primeira que devemos considerar conhecimento que não se aprende na escola, aquele que é passado de pai para filho. Depois por meio das suas formas, cores, maneiras de coser e pensar nas estruturas que é possível trabalhar com geometria, simetria, aritmética através da experiência dos/as alunos/as no coser, no manusear os tecidos, em conhecer a história e aproximar de suas realidades. Deixando pra trás aquele ideal conteudista, sistematizado de transmissão do conhecimento, inócuo e distante. A etnomatemática é antes de tudo um exercício de respeito à diversidade”, finaliza.

*No capítulo 5 da tese de mestrado da professora Eliane Costa você pode encontrar sugestões de atividades para sala de aula que trabalham com a etnomatemática nos tecidos de Gana – Faça aqui o download*

1 comentário neste postEnvie
  1. Como professor de História há mais de 20 anos na Rede Oficial de Ensino -Estadual de S. Paulo, me identifiquei com as dificuldades enfrentadas pela professora Vera Lúcia Benedito. Mas aqui teço comentários mais amplos desta realidade, o ensino da cultura Afro e incluo até a Indígena : De fato, preconceitos e ignorancia de uma classe média branca conservadora e pior, de afro-descendentes de classe média , pois desonram e se envergonham do que são. Esquecidos dos ilustres negros deste país, são os maiores entraves para tais práticas pedagógicas. Chega a ser hilário e trágico. Numa Feira Cultural insisti com os alunos na cultura afro-brasileira ( os alunos já estranharam, os brancos, negros… ), mas consegui que uma das salas da Escola representasse todo o simbolismo de uma Congá, que sem a consagração, continua sendo um local profano de estudos. Na visitação pública, deu para “contar nos dedos” quantos pais entraram…só os corajosos, rsrsrs. Mas a sala de “Inglês” lotou, com fartos elogios da diretora. E sem tirar o mérito do colega professor de Inglês, e da “envergadura intelectual” da diretora; seu trabalho consistia em projetar numa tela materiais “enlatados”. E “minha sala” tinha estatuetas de orixás, vestimentas, até uma carranca original das barcas do rio São Francisco; o mérito não foi meu , mas de alunos sensíveis à minha proposta e intenção. É lamentável que nossa cultura afro , e indígena também , sejam tão desvalorizadas apenas porque não atendem aos interesses mercadológicos do sistema econômico. Mas o brasileiro fica de joelhos para a cultura alheia. Folclore brasileiro ? não, nas escolas o Halloween anglo-saxão. Sem falar dos absurdos, dos que se ofendem, religiosamente e moralmente falando; esquecidos que o Estado Brasileiro é Laico, assim como o é o Ensino da Rede Pública, e que a Constituição Federal garante ao professor Livre Cátedra- até para o Halloween; não estamos obrigados a ser passivos ao obscurantismo de “religiões” e grupos castradores da mente infanto-juvenil, o papel do professor é abrir horizontes, Liberdade de Consciência; deveria ser; espanar a poeira de velhos preconceitos e chavões pejorativos contra grupos culturais minoritários mas que não fizeram de suas crenças íntimas uma empresa, que por eufemismo hipócrita muitos , mas não todos, pois ainda há convicções sinceras; chamam de Igrejas. E, se a Constituição garante liberdade de culto, ( mas há alguns anos, “evangélicos” depredaram terreiros na Bahia – são estes fiéis a Cristo ou a Hitler ? – desprezar e destruir a cultura de uma raça, não é perseguir esta etnia ? ) ela , a Constituição, também prescreve a punição dos crimes contra a economia popular ( e o que são certos “dízimos” ? não passam de flagrante exploração criminosa das dores alheias, mas concordemos que há os honrosos, para fins caritativos, mas estes não enriquecem o “arauto de Deus” ). Tudo se resume : Hipocrisia. Na hora do “aperto”, quando falharam o padre, o pastor e o médico; lá vai o “católico” , o “evangélico” , se benzer com a boa velhinha negra…, maternal, cativante, poética…, ou não ? Fica a pergunta para cada consciência . Mas não vamos perder o otimismo e a esperança. Obs.: Sou branco de ascendência italiana, não sou adepto da Umbanda, nem do Candomblé, aqui é uma análise imparcial, sociológica, real. O testemunho de um professor diante da realidade escolar. Um brasileiro indignado com o Totalitarismo dos “donos da verdade” , da “Cultura Superior”, “Religião Superior”, etc., o “superior” já pressupõe falta de humildade e portanto, de sentimentos humanitários e de ética.

Envie seu comentário

Por favor, informe seu nome

Nome é obrigatório

Por favor, insira um email válido

Email obrigatório

Por favor, insira sua mensagem

Formação em Direitos Humanos © 2019 Todos os direitos reservados

Design de WPSHOWER