Sarau LiteraRua: esfarelando estereótipos e paradigmas

Durante o momento de trocas e combinados do curso Educação, Relações Raciais e Direitos Humanos, a aluna e professora da rede estadual de educação, Denise Bergamo da Rosa*, apresentou aos presentes o Sarau LiteraRua, iniciativa da comunidade de São Januário, localizada no bairro  Campo Limpo, zona sul da cidade de São Paulo.

Marcado pela presença de todos os elementos do Hip Hop, o LiteraRua comemorou em grande estilo seu primeiro ano, com a presença do Coletivo piracicabano de mídia livre Serviço de Utilidade Pública e da Casa do Hip Hop de Sorocaba.

Confira o texto de Denise Bergamo da Rosa e Carlos Canedo, publicado originalmente na revista colaborativa Em Transição, que conta a história do Sarau LiteraRua e fala sobre esse intercâmbio cultural entre periferias.

Da Sul pra Sul

por Denise Bergamo da Rosa e Carlos Canedo

Durante os onze anos de Cooperifa e quatorze de sarau do Binho na Zona Sul da capital, ocorreu uma grande dissemi­nação dos saraus nas periferias paulista­nas. A poesia começava a ganhar espaço maior nas quebradas, esfarelando estere­ótipos e paradigmas equivocados.

A periferia, “carente de cultura pró­pria” pelas péssimas referências midiáti­cas, descobre que é possível produzir sua própria literatura, construir sua história e viver sua própria cultura, agora escrita pelas próprias mãos de seus moradores e conviventes, e não mais por terceiros de “primeiro escalão” ou da televisão. Com­preende que a cultura hegemônica ofer­tada a ela distorce sua própria realidade, confunde seus irmãos e incita a guerra pelo sangue uns dos outros, sendo que jamais supriu suas necessidades reais, de um povo que deseja formar um pensa­mento coletivo e não comprar a prazo uma ideia consumista de poder pelo di­nheiro. Percebe que o que lhes era dado em seguida era tomado de suas mãos, em um jogo ludibriante de alienação mental daqueles que já nascem condicionados à carência.

Visando o olhar crítico do mundo e a autocrítica da comunidade, os saraus começam invadindo os botecos, já que na biblioteca não era lugar de poesia – como já disse Criolo. Assim, começam a ser moldados de acordo com suas co­munidades e suas expectativas, há pouco mais de uma década. Voltados para a raiz da cultura negra, dramaturgia, música, cinema, artes plásticas, dança, ou ainda todas as artes juntas, e principalmente os elementos que compõem a cultura Hip Hop, valorizam a identidade cultural da periferia, fortalecem suas referências históricas e cultivam seus próprios he­róis. Os saraus são vários e hoje estão em todas as partes da Capital: Zonas Sul, Norte, Leste e Oeste. Criam um levante cultural que nasce de baixo para cima, da base, contrariando a cultura hegemônica que vem de cima para baixo, sobreviven­do como uma imposição condicionada.

Nesse contexto surge o Sarau Litera­Rua, idealizado e realizado no distrito de Campo Limpo, bairro localizado na Zona Sul da cidade de São Paulo, co­munidade de São Januário. É mais um Sarau que nasceu da vontade de desen­volver na comunidade um projeto com identidade cultural própria, que valori­ze os artistas regionais e suas artes, e a literatura marginal. É mais um Sarau que invadiu o boteco para inverter va­lores culturais e resistir culturalmente ao massacre hegemônico da globalização.

O LiteraRua funciona com um DJ e um microfone aberto, onde todos que estiverem presentes podem se manifestar, seja com uma poesia, uma música, uma mensagem, um salve; basta se inscrever com o mestre cerimonial do Sarau e apropriar-se da fala no microfone. Durante e entre os intervalos das apresentações, os artistas do grafite desenham numa tela uma arte que será doada no final do evento. O LiteraRua, assim como a maioria dos Saraus na capital, acontece num boteco da quebrada que apóia a ideia revolucionária. Entre o balcão e os banheiros, de frente com os troféus do time de futebol local, uma pequena biblioteca, uma enorme intervenção: uma prateleira inteira cheia de diversos livros que são folheados pelos presentes durante toda a noite. Se alguém tiver interesse pode emprestar um livro no boteco. Nesse contexto de mudança de paradigma, percebe-se a maioria dos elementos do Hip Hop presentes no Sarau, à exceção do Break.

O Sarau LiteraRua completou um ano de vivência em setembro último; muitos encontros com várias pessoas aconteceram durante esse ano, pessoas da comunidade local e de outras comunidades, num verdadeiro intercâmbio cultural de periferias, que recentemente chegou até o interior do estado de São Paulo, especificamente aqui, na cidade de Piracicaba.

Impulsionados pela quebra de barreiras do espaço e tempo que a internet proporciona, em julho de 2012 o Sarau LiteraRua e o Coletivo piracicabano de mídia livre Serviço de Utilidade Pública -SUP, tiveram seus primeiro contato. No dia 28 de julho de 2012 fizeram uma reunião para se conhecer e difundir idéias, enquanto coletivos.

Então, o coletivo SUP, em parceria com a Casa do Hip Hop de Piracicaba e fechando junto com o Sarau LiteraRua, propôs uma parceria para a apresentação de um dos educadores de Break da Casa do Hip Hop, completando assim todos os elementos do Hip Hop no Sarau LiteraRua.

No dia 10 de agosto de 2012 o educador de Break Kabal e o presidente da Casa do Hip Hop de Piracicaba Bira foram até a comunidade de São Januário no Bairro Campo Limpo conhecer o sarau de periferia de São Paulo e disseminar o Break naquela localidade. Um grande encontro entre as periferias do interior e da capital. Em 14 setembro o SUP e a Casa do Hip Hop retornaram ao sarau LiteraRua para a festa de um ano de luta. O SUP produziu e colocou na rede dois vídeos sobre o LiteraRua e um terceiro estará pronto em breve. Tanta poesia, cultura e Rap só podia acabar em mais um Sarau, e assim será.

Com a participação de muitos parceiros, amigos, coletivos e artistas piracicabanos e paulistanos, idealizado pelo Serviço de Utilidade Pública em parceria com a Casa do Hip Hop de Piracicaba, instigados pelo Sarau LiteraRua e apoiados pelo Coletivo Piracema e Ponto de Cultura Educomunicamos!, nasce um novo Sarau na periferia paulista, agora no interior, o bem vindo CulturuPira, o Sarau Que a Casa Cai.

Muita música, dança, poesia, grafite e fé no ser humano serão consagrados em mais um Sarau Literário, criado para difundir a cultura do povo para o povo, por mais autonomia social e inclusão cultural. De Campo Limpo, São Paulo: Sarau LiteraRua para Piracicaba, São Paulo: Sarau CulturuPira.

<<*Denise Bergamo da Rosa é colaboradora blog Polifonia Periférica: Registro e disseminação das atividades culturais nas periferias brasileiras e ativista no Sarau Literarua: Movimento de resistência na Comunidade de São Januário (Distrito de Campo Limpo) que contempla os cinco elementos do Hip-Hop>>

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