O negro na história da arte nacional, por Renata Felinto

Com a implementação da lei 10.639 de 2003 – que institui a História e Cultura afro-brasileira e africana na Educação Básica – o ensino de artes nas escolas públicas ganharam um novo patamar no currículo escolar, por serem disciplinas que asseguram um lugar de destaque para expressividade individual e coletiva, viabilizando o trabalho com elementos que valorizem a identidade e o pertencimento dos/as estudantes negros/as dessas instituições.

No curso Educação, Relações Raciais e Direitos Humanos, a artista e doutoranda em Artes Visuais, Renata Felinto, traça um panorama da presença do/a negro/a na história da arte nacional. Mostrando como este sujeito está presente, seja como representado ou representador, na denominada arte afro-brasileira.

Ela divide as formas de representação do/a negro/a em três momentos distintos, são eles: o documental, o social e o intimista.

O período documental compreende os séculos XVII, XVIII e XIX e se caracteriza por uma produção focada nos elementos constitutivos do Brasil colônia, tido como desconhecido, encarado como exótico e novo. São representadas a geografia, a fauna, a flora, a população, modos e costumes brasileiros.

Parte significativa das obras é de autoria de artistas estrangeiros, viajantes, que tem como função principal registrar a realidade da nova terra. Entre os principais pintores, Renata destaca:

Os holandeses Frans Post (1612 – 1680) e Albert Eckhout (1610 – 1666), que vieram para Pernambuco com Maurício de Nassau e tinham responsabilidades artísticas documentais específicas. A responsabilidade de Post era pintar edifícios, portos, fortificações e paisagens, como esta da obra acima da Vista de Itamaracá. Em suas obras o negro não é central, sendo retratado como elemento constituinte do cenário. Já Eckhout assume a função de pintar, além da fauna e flora, os tipos humanos. Como nas obras de 1641, Homem Negro e Mulher Negra, nas quais representa negros/as brasileiros/as como se fossem africanos/as da região de Angola ou da República Democrática do Congo, o que os distancia dos/as escravizados/as que o pintor entrou em contato no Brasil.

No século XVIII, Carlos Julião (1740 – 1811), oficial militar italiano a serviço da Coroa Portuguesa, antecipou um tipo de representação comum no século XIX que priorizava detalhadamente o cotidiano das pequenas cidades e vilas, festas populares e o trabalho escravo nas regiões da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Entre os artistas barrocos, destaca-se Manoel da Costa Athayde (1762 – 1830). Nos quadros desse artista, o/a mestiço/a conquista relevância, prática que será percebida entre outros artistas dessa escola.

No teto da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, Minas Gerais, encontramos uma pintura de Nossa Senhora de Porciúncula com traços negroides nos lábios e nas narinas, embora o tom da sua pele oscile entre tons rosáceos e terrosos. Segundo Renata Felinto, especula-se que a inspiração do artista venha de seus filhos e mulher mestiços.

Jean Baptiste Debret (1768 – 1848), que faz parte da Missão Artística Francesa, é um dos autores cujo trabalho, afastado do compromisso com as instituições católicas, passa a representar o/a negro/a como principal objeto de interesse em situações de trabalho escravo e nas relações cotidianas entre senhores/as e cativos/as.

O alemão Johann Moritz Rugendas (1802 – 1858), contratado pela expedição russa Langsdorff, que se aventurou por 17 mil km do território nacional, traz em suas aquarelas o/a negro/a em uma espécie de crônica no Rio de Janeiro.

Arthur Timotheo da Costa (1882 – 1922) é um dos poucos negros a retratar seus contemporâneos no século XIX. É formado pela Academia Imperial de Belas Artes, e em suas pinturas o/a negro/a deve ser estudado pelas suas linhas, formas e cores.

Dois fotógrafos também ganham destaque no período, são eles Christiano Junior (1832 – 1902) e o carioca Militão Augusto de Azevedo (1840 – 1905). O primeiro montou cenas em seu estúdio fotográfico nas quais os/as escravos/as representavam seus próprios ofícios, sobretudo os/as negros/as de ganho. Tais composições eram transformadas em cartes de visite, imagens comumente compradas como souvenirs de viagem. Já com o ateliê defronte da Igreja Nossa Senhora do Rosário, frequentada por negros/as, Militão fotografou inúmeras dessas famílias dignamente trajadas.

Já no início do século XX, o/a negro/a se torna sinônimo de brasilidade e despontam as representações qualificadas como de caráter social, na qual o/a negro/a ora assume o seu passado de escravizado, ora o caráter de sujeito, indivíduo.

Nessa escola, encontramos os modernistas Alfredo Volpi (1896 – 1988), Cândido Portinari (1903 – 1962) e o lituânio Lasar Segall (1891 – 1957). Que ressaltam em suas pinturas a situação social e a individualidade do/a negro/a. É também neste período histórico, comenta Renata, que os/as negro/as emergem no cenário artístico nacional e internacional e mesmo sem uma formação acadêmica passam a retratar o próprio povo. Os principais nomes que marcaram este momento são Heitor dos Prazeres (1898 – 1966), Sérgio Vidal (1945) e Agnaldo Manuel dos Santos (1926 – 1962).

Nos anos 1990 do século passado, ocorre o período intimista e os trabalhos que assumem uma qualidade “macrobiográfica”. Como explica Renata, autores como Eustáquio Neves (1955) e a paulistana Rosana Paulino (1967) contam, por meio de seus quadros e ilustrações, histórias das próprias famílias que são universais e se adéquam em trajetórias de todos/as os/as negros/as.

O caminho percorrido pela artista Renata Felinto em sua explanação demonstra como a implantação da lei 10.639/2003 é fundamental para superar a negação histórica da presença do negro/a na arte nacional, possibilitando assim que as crianças conheçam sua história e nela passem a se reconhecer.

Frans Post, 1637 – Vista de Itamaracá

 

Albert Eckhout, 1641 – Mulher Negra

 

Carlos Julião, 1767 – Pretas do Rosário e Rede em que se Transportam os Americanos para suas Chácaras e Fazendas e Preta que Leva o Jantar na Cuia

 

Manoel da Costa Athayde, 1801-1812 – Nossa Senhora de Porciúncula

 

Jean Baptiste Debret, 1829 – O tocador de berimbau

 

Interior de um navio negreiro idealizado, por Rugendas

 

 

Retrato de menino, por Arthur Timotheo da Costa. Uma das obras que traz uma de suas fortes características: o interesse pelo estudo da figura humana

 

Escravo Confeccionando um Cesto, 1865 – Christiano Junior.

 

Família (anônima), 1870, por Militão Augusto de Azevedo. Com o ateliê defronte da Igreja Nossa Senhora do Rosário, frequentada por negros/as, Militão fotografou inúmeras dessas famílias dignamente trajadas.

Mulata, 1927 – Alfredo Volpi. Volpi pintou muitos retratos de mães e filhos/as negros/as, com profundo interesse neste tipo de representação, talvez despertado por ter como companheira uma mulher negra, Judith.

 

Mestiço, 1934 – Cândido Portinari. Portinari exaltou os braços e as mãos negras que construíram a nação brasileira

 

Bananal, 1927 – Lasar Segall. De acordo com Renata, esta obra de Segall é representativa de sua preocupação em retratar a agonia social e psicológica sofrida pelo/a negro/a no Brasil. Ao pintá-la ele afirmou estar se sentindo como membro da população negra, isolado e sozinho. Sem respaldo do poder público e sem uma interação com os/as vizinhos/as do bairro em que vivia

Frevo, sem data – Heitor dos Prazeres. Iniciou sua produção como autodidata e passou a retratar um Rio de Janeiro dos tempos dourados do samba carioca da década de 1960, do século XX. Sempre demonstrou grande apreço pela temática da música

 

Fla x Flu – Sergio Vidal. Trabalhou até os 25 anos como torneiro mecânico, quando começou a pintar aquarelas. Aprendeu a usar tinta óleo com Heitor dos Prazeres. Na opinião de Renata Felinto, em sua obra os/as negros/as são pessoas completas, humanas em todos os seus aspectos, com família, emprego, lazer e dignidade.

 

 

"Arturos", 1993-1995 – Eustáquio Neves. Nesta série, Eustáquio narra em imagens à história da família de mesmo nome que vive em Minas Gerais.

 

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  1. liindas pintura de arte adorei

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