“Temos que confiar, investir e prestar atenção nestes/as jovens que não são vazios, que têm uma cultura diversa e com muito valor”, defende o antropólogo Paulo Malvasi

 

“Mas não, permaneço vivo
prossigo a mística
Vinte e sete anos contrariando a estatística
Seu comercial de tv não me engana
Eu não preciso de status nem fama
Seu carro e sua grana já não me seduz
E nem a sua puta de olhos azuis
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Apoiado por mais de 50 mil manos
Efeito colateral que o seu sistema fez
Racionais capítulo 4 versículo 3”

Trecho final da música Capítulo 4, Versículo 3 do grupo de rap Racionais MC’s

 

 

            “O crescimento da cidade explodiu nos anos 1950 sob padrões excludentes. Grandes avenidas foram construídas seguindo o curso dos rios e os bairros mais periféricos foram se estabelecendo de forma disforme, irregular. Passa-se por uma avenida e quebra-se à direita, depois à esquerda, repete-se a sequência até chegar em sua quebrada. A quebrada surge como algo que está fraturado”, diz o antropólogo e professor universitário, Paulo Malvasi, no último dia de aula do curso “Direitos humanos e adolescentes em conflito com a lei” para gestores/as da Fundação Casa.

            Ao explicar a origem do nome do ambiente onde se localiza o objeto de sua tese de doutorado “Interfaces da vida loka: um estudo sobre jovens, tráfico de drogas e violência em São Paulo”, Paulo abordou o tema Cultura de Periferia, trazendo reflexões sobre a realização das medidas socioeducativas.

            Para entender a cultura marginal paulistana, o professor traça histórico sobre a formação das regiões mais periféricas da cidade: em 1975, a periferia era o local onde se observava a ausência do Estado e onde nasciam os movimentos sociais urbanos, como os Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedecas) e a militância da Teologia da Libertação.

            Nos anos 1980, explica Paulo, há a redemocratização do país na chamada “década perdida”, com uma crise econômica de grandes proporções e uma alta taxa de desemprego. “Neste momento houve o crescimento da violência a partir de uma rápida e desorganizada urbanização, com a herança da violência do Estado militar e da chegada do estilo de vida norte-americano de ostentação”.

            Já nos anos 1990, de acordo com o antropólogo, a cultura de periferia começou a retratar seu cotidiano violento por meio do disco “Sobrevivendo no Inferno” do grupo de rep Racionais MC’s, por exemplo. “Percebe-se o crescimento do tráfico e de ações cada vez mais agressivas para combatê-lo. De cada 100 homicídios cometidos atualmente no Brasil, apenas oito são punidos. Na luta contra o crime, será que estamos priorizando as ações de maneira correta?”, indaga.

            Os/as que nasceram nos anos 1990, detalha o professor, se tornaram adolescentes nos anos 2000 e cresceram em uma sociedade criminalizada e com alto índice de mortalidade de seus pais. “Com o crescimento do Primeiro Comando da Capital [PCC], há a ascensão do crime como um ambiente de mercado, flexível e marcado por características de empreendedorismo e violência. ‘Ter uma mente’, por exemplo, é expressão que o comando utiliza para se referir a quem possui autocontrole: a quem usa drogas, mas não se vicia por saber minimizar os riscos de seus negócios”, relata Paulo.

            Ele explica que pertencer ao PCC vai muito além da prática ou não de ações criminosas e que assumir a participação no comando representa, de certa forma, a conquista de autonomia e de reconhecimento em um grupo que passa pelas mesmas privações. “Muitas vezes há a relação entre quem é do crime com quem não é. Não tem apoio, mas tem amizade”, diz o antropólogo ao alertar que mesmo o jovem que cometeu um ato ilícito possui muito de uma cultura que é periférica, mas não, necessariamente, criminosa. “O perfil dos/as jovens é diverso e não dá pra misturar todos/as como se tivessem vivido as mesmas coisas”.

            Para Paulo, existem várias diferenças entre a chamada cultura da “quebrada” e a cultura criminosa. “Na quebrada prevalece a lei das ruas, o dialeto da ‘vida loka’ e a consciência de pertencimento à periferia. Já a cultura do crime se fundamente na lei, no marco discursivo e na mente criminal de fato”. Ele esclarece que “o próprio PCC utiliza a argumentação verbal como instrumento de julgamento paralelo” e que isso demonstra um potencial: “o uso da palavra com poder de transformação”.

Nada como um dia após o outro

Além da influência do PCC na vida destes/as jovens e adolescentes, existem outros desafios e dificuldades no atendimento socioeducativo daqueles/as que entraram em conflito com a lei. O aumento do número de internos, a dificuldade no convívio e, principalmente, a falta de uma rede de atendimento ao/à jovem após retornar para sua comunidade de origem são algumas das aflições transmitidas pelo/as participantes ao professor neste último dia de curso.

“Não podemos perder a esperança e deixar de saber o objetivo do trabalho feito com estes/as adolescentes. Tem alguns/mas que já estão determinados/as a fazer parte do crime, mas boa parte fica balançada mesmo que não demonstre no dia-a-dia. A melhor medida socioeducativa que eu vi é a criação de vínculo com este/a adolescente, fazer com que ele/a se sinta próximo/a e valorizado/a”, defende Paulo ao considerar a importância do diálogo e de uma proximidade amistosa entre os/as funcionários/as da Fundação Casa e os/as internos/as.

            Ao analisar a privação de liberdade dos/as jovens da Fundação, o antropólogo afirma que a partir de práticas neoliberais o Estado tem deixado de gastar em ações sociais para investir na construção de cada vez mais presídios e aparelhos repressores. “Há um cenário global de encarceramento em massa que não está diminuindo a criminalidade. Não se trata de ‘passar a mão na cabeça’ deles/as, mas sim, de confiar, investir e prestar atenção nestes/as jovens que não são vazios, que têm uma cultura diversa e com muito valor”, finaliza.

 

Foto: Garry Knigth/Flickr

1 comentário neste postEnvie
  1. O padre Alípio de Freitas, que segundo a Revista Época era “amigo de fé de Paulo Freire no movimento pela alfabetização, assíduo no lendário Centro Popular de Cultura”, foi o guerrilheiro que, preso em Ilha Grande, auxiliou no processo de formação do Comando Vermelho, o que levou posteriormente à criação do PCC, que o acadêmico aí acima não condenou moralmente. O padre Alípio mesmo confessa, com orgulho de sua militância de esquerda: ” Organizo grupos por onde ando. Fiz isso em todas as prisões por onde passei. Não me arrependo.” Eu pergunto à Ação Educativa se vocês não teriam interesse em chamar esse padre para fazer palestras na Fundação Casa. Um dos criadores do Comando Vermelho andava com o pedagogo que vocês mais admiram: Paulo Freire.

Envie seu comentário

Por favor, informe seu nome

Nome é obrigatório

Por favor, insira um email válido

Email obrigatório

Por favor, insira sua mensagem

Formação em Direitos Humanos © 2014 Todos os direitos reservados

Design de WPSHOWER