Ana Lúcia Silva e Souza: Letramento, Relações Raciais e Hip Hop no currículo e cotidiano escolar

Quando o tema é letramento muitas vezes a associação imediata é feita em relação ao universo da alfabetização, no qual as habilidades de leitura e escrita são centrais. A professora doutora em linguística, Ana Lúcia Silva e Souza, explica que este processo é natural, sobretudo, por conta das reformas educacionais ocorridas no país no início do século XX.

“A ideia era apagar os traços da escravidão e da colonização e a escola foi eleita como a instituição capaz de sustentar as transformações necessárias de uma sociedade que estava se modernizando. Neste contexto, o letramento escolar passou a ser destaque, em detrimento da oralidade e saberes tradicionais de populações, como indígenas e negras”, comenta.

Diante deste cenário, Ana Lúcia convida os/as presentes a ampliarem os seus olhares sobre o conceito de letramento que, em sua opinião, deve ser trabalhado no plural, dentro de uma perspectiva múltipla e historicamente situada. Para ela, letramento é prática social, cuja construção pode se dar em esferas institucionalizadas, como a escola, ou em espaços de aprendizagens em distintas dimensões do cotidiano.

“Como explicar que a minha vó, que não era alfabetizada, conseguiu me ensinar um monte de coisas? Como aquele jovem que não consegue interpretar um texto em sala de aula, fora dali consegue escrever uma letra de rap, grafitar um muro e dialogar com seus pares por meio da fala, dos gestos e de suas roupas? Dá para falar que essas pessoas não são letradas? A escola está diante de diferentes culturas que nunca conseguiu lidar, mas que não podem mais serem silenciadas.”, salienta a professora.

A partir deste diagnóstico, elaborado em sua pesquisa com jovens ativistas do movimento hip hop, Ana Lúcia criou o conceito de Letramento de reexistência, apontado como uma reinvenção do uso da linguagem que, ao fazer referência às matrizes culturais historicamente negadas, é marcada pelo esforço do auto-reconhecimento, desenvolvido de diferentes maneiras e formatos.

“O ponto principal do letramento de reexistência está nas formas de micro-resistência cotidiana. Os ativistas do hip hop ao beberem da fonte do movimento negro lá do início do século, adaptaram, recriaram, inventaram táticas e estratégias de subversões que permitiram driblar as barreiras em busca de uma educação emancipadora e a desigualdade de inserção da população negra no universo escolar”.

Nesse sentido, uma das marcas do universo hip hop está em sua capacidade de mesclar diferentes linguagens (orais, verbais e imagéticas) sem hierarquizações que desvalorizem as práticas educativas da escola. O que ocorre é uma apropriação de tais técnicas com vistas combater discursos excludentes cristalizados nestas realidades. Por meio da cultura hip hop, ressalta Ana Lúcia, os/as jovens assumem novos papéis e contribuem para o enfrentamento e superação do racismo, valorizando a oralidade, a arte e a corporeidade tão presentes na cultura africana e afro-brasileira.

“Observe o vasto campo de atuação que o hip hop abre para a nossa gente. É importante que essa discussão se amplie porque nós precisamos repensar a formação de professores, quais materiais vamos levar pra sala de aula e quem são esses sujeitos e como essas histórias estão nesses lugares. Os/as jovens negros/as definidos como não letrados, já carregam letramento em seu corpo. Pensar em letramento de reexistência significa nós abrirmos nossos baús e trazermos as nossas histórias. Pra isso, evidentemente nós vamos ter um trabalho de convencer a academia que a nossa história é ciência, esse é o grande barato. Nós não estamos brincando, estamos construindo e reconstruindo nosso percurso cientificamente. E isso é disputa, não tenho nenhuma dúvida quanto a isso.”, conclui.

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