Psicóloga aborda questões de gênero na educação de bebês e crianças

A psicóloga Cizele Ortiz abriu a rodada de palestras da segunda unidade do curso Educação Gênero, Direitos Humanos, Gênero, Sexualidade, e Raça falando sobre sua experiência como coordenadora do Instituto Avisa Lá, diretora da Associação Brasileira dos Estudos do Bebê e professora do Singularidade. Em primeiro momento, Cisele falou um pouco da história do instituto, fundado em 1986, visando contribuir para qualificação da prática pedagógica  das redes públicas de Educação Infantil. Em 2002, o Avisa Lá passou atuar também no Ensino Fundamental (séries iniciais) nas áreas de leitura, escrita e matemática. Já foram alcançados pela iniciativa 200 municípios de diferentes estados brasileiros.

A psicóloga apresentou algumas publicações de apoio da ONG, como a Revista Avisa Lá, que socializa as boas práticas e reflexões que os profissionais das escolas fazem. Por meio de parcerias com a Universidade Federal de São Carlos, foi produzido o livroPráticas Promotoras da Igualdade Racial na Educação Infantil, distribuído pelo MEC por todas as escolas de educação infantil. O material inclui vídeo e está disponível aqui. O livro Diretrizes de Ação – Qualidade no dia a dia da educação infantil foi distribuído esse ano em parceria com o MEC e a UNICEF, e explica como transformar documentos legais em práticas de qualidade, baseado em uma experiência de formação em uma creche do Maranhão.  Houve também uma breve menção ao livro de Cisele, chamadoPensando nos professores de bebês – cuidar, educar e brincar, uma única ação.

Os estágios iniciais

Ao falar sobre o nascimento dos bebês, Cisele afirma que os quartos são reveladores do que se espera sobre o que a criança vai ser e como ela vai corresponder a isso. Isso mostra que as questões de gênero já começam antes do nascimento. É importante, ao trabalhar com creches, entender que espaço essa criança preenche no imaginário da família.

É de extrema importância, então, que se pense na criança desde os estágios iniciais de seu desenvolvimento. Cisele pontua que há uma espécie de discriminação etária, que faz com que as crianças de 0 a 4 anos fiquem invisibilizadas quando se fala de educação, além de haver uma falta de estrutura nos espaços públicos preparados para recebê-las.  E, embora não seja obrigatória a inserção dessas crianças nas creches, em famílias mais pobre é fundamental que a mãe tenha esse apoio, já que muitas vezes ela tem que deixar a criança para trabalhar. Cisele lembra que as creches surgem por uma questão de gênero, fruto de conquistas feministas que permitiram as mulheres terem mais liberdade para trabalhar.

Segundo ela, para o existir, o bebê precisa do “outro”. Se o “outro” não cuidar desse bebê, ele morre, pois não tem competência para cuidar de si mesmo. Mas além disso, precisa do “outro” para sua existência psíquica, porque precisa se construir como sujeito,e o “outro” vai dar sentido e significado para as ações e manifestações do bebê. Aí são construídas as primeiras relações da criança. Só que o “outro” nunca está isolado, pois carrega com ele diversas expectativas sociais. Inclusive expectativas de produtividade da criança.

O ambiente

Podemos comparar a criança a um átomo, no qual orbitam diversos fatores significativos, como ambiente físico, materiais com os quais tem contato, constituição física e fisiológica, de que cor é, o sexo com o qual nasceu, lugar que ocupa na família, mitos familiares, campos discursivos que está inserida, linguagem, cultura. Há também uma questão fundamental: pais, mães e cuidadores exercem uma função, a “função materna” e a “função paterna”. São funções simbólicas, não tão rígidas, nem tão sólidas, presentes às vezes na mesma pessoa, às vezes separadamente. As duas devem ser exercidas plenamente para que a criança se constitua como sujeito. A função materna é a que dá ressonância às ações do bebê, aquela que nomeia as ações, aconselha sobre o que é seguro,a que tem um olhar de cuidado, acolhimento. A função paterna é a que estabelece limites, que ajuda a inserir em uma ordem social e ajuda a separar a criança da pessoa que exerce a função materna. A função de emancipação é tão importante quanto a de acolhimento. O problema é que normalmente colocamos a função materna apenas nas mulheres e a paterna apenas em homens.  O educador deve exercer também essas funções e criar vínculos com as crianças, porque esses laços são condições para a aprendizagem.

Gênero e educação básica
O educador também deve conviver com a diferença. As oposições entre gênero e educação estão muito centradas em questões biológicas, que dizem que somos diferentes anatomicamente e fisiologicamente. Porém, essas questões não devem ser determinantes de quem nós somos, a questão do gênero não está ligada às questões biológicas, está ligada a um constructo social.

Quando se pensa na educação infantil e em gênero, a primeira que Cisele relembra é a ausência dos homens. Existe uma ideia de dicotomia que diz que o homem traz a ordem e o conhecimento tecnológico para a escola e as mulheres trazem a moral e a higiene. Existe também preconceito em relação aos homens na educação infantil, como se o homem que se interessasse por ela tivesse algum problema ou fosse algum tipo de pervertido, e portanto deveria ficar em eterna vigilância, sem poder se aproximar dos corpos infantis. Fora o tabu em relação a isso, existe uma falta de prestígio na profissão que faz om que homens procurem por outras, porque são pressionados a galgarem profissões mais respeitadas pela sociedade, ou cargos de poder.

Outra questão importante são as propostas pedagógicas discriminatórias. Um exemplo são as escolas que oferecem balé para as meninas e judô para os meninos, explicitamente colocado dessa maneira. Isso transmite a mensagem de que o corpo da menina tem que exercer questões de sensibilidade e o do menino de agressividade. Os brinquedos também são bons exemplos dessa postura. Para os pais, as posturas discriminatórias aparecem quando há uma maior tolerância aos erros dos homens e maior cobrança aos erros das mulheres.

Ela finaliza lembrando que  meninos e meninas desenvolvem seus comportamentos e potencialidade no sentido de corresponder às expectativas quanto às características mais desejáveis para o que é definido como pertinente a um modelo singular e unívoco de masculinidade e feminilidade em nossa sociedade. Por isso precisamos nos preocupar desde a barriga da mãe no que de fato estamos transmitindo para essas crianças.

Envie seu comentário

Por favor, informe seu nome

Nome é obrigatório

Por favor, insira um email válido

Email obrigatório

Por favor, insira sua mensagem

Formação em Direitos Humanos © 2019 Todos os direitos reservados

Design de WPSHOWER