Sociólogo fala sobre violência escolar entre meninas

Paulo Neves é sociólogo, mestre em Educação pela USP e investigou as disposições de gênero acionadas por jovens alunas em diferentes episódios que envolviam violência em escolas públicas e privadas. Sua tese se chama “As meninas de agora estão piores que os meninos: gênero, conflito e violência na escola”. Ele abriu sua fala relembrando algumas contextuações sobre gênero nas escolas e falou sobre o que encontrou de diferente em escolas públicas e privadas.

A diferença entre as escolas, segundo ele, é que a experiência violência na escola pública era alta. Ela se manifestava no seio familiar, na escola e no intragrupo. Houveram vários relatos de jovens sobre violência familiar, como uma forma legítima de reordenação da ordem doméstica. Além disso, a violência escolar foi registrada de diversas formas, através de professores jogando giz, mandando os alunos “calarem a boca” e entre os próprios grupos de jovens. Nas escolas privadas, a violência era mais baixa e acontecia entre as crianças, principalmente entre irmãos. Os espaços de socialização dos jovens nas escolas públicas era apenas o ambiente escolar. A das crianças de escola privada era amplo, além do ambiente escolar, como academias, conservatórios etc. Entretanto, embora fosse possível destacar essas diferenças, as razões apontadas como principais pela violência eram basicamente a mesma: a traição.

Na escola pública em que trabalhou, Paulo percebeu que a violência era uma forma legítima de resolução de conflitos. Era, inclusive, um meio de se conseguir respeito e popularidade. O respeito e o limite são impostos pela possibilidade da violência. Até então, acreditava-se que isso era uma coisa compartilhada apenas por meninos. A utilização de conceitos de gênero permitiu desconstruir a hipótese de ciúmes levantada inicialmente em relação à violência contra as mulheres. Por envolver respeito, visibilidade e honra, evidenciavam pontos de resistência à socialização de gênero. Elas deixavam de ser vítimas para se tornarem protagonistas. Isso tem um lado negativo, porque legitima a socialização da estrutura social patriarcal, baseada na violência. É como se reproduzissem o padrão masculino ao mesmo tempo que contestam os papéis de gênero.

Nas escolas particulares, a intervenção da gestão escolar evitou o 1º conflito, nos casos de traição. A mudança do conflito só acontece quando uma das estudantes passa a fazer ofensas públicas relacionadas as socializações mais divulgadas, como o papel do Garanhão e da Recatada, da Traída e da Traidora, do Traidor e do Traído. Na escola privada, a agressão reforça as socializações de gênero. Ao apanhar, a traidora deixa de ser protagonista para ser vítima e a traição passa a ser uma das únicas possibilidades que tornam a agressão física protagonizada por mulheres como socialmente compreensível. A diferença é que nas escolas privadas o comportamento não é tão frequente. As jovens não só recorrem menos à violência, como não a legitimam, pois, afinal esete não é um atributo socialmente divulgado como feminino.

Em ambos os casos, a violência contesta – de maneiras diferentes – os papéis de gênero, ao mesmo tempo que reafirmam a socialização de gênero masculina que diz que a violência é uma forma de resolução de conflitos legítima.

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