Pesquisadora fala sobre a situação das travestis

Juny Kraiczyk é mestre em bioética pela UNB, pesquisadora MURIEL USP, coordenadora do programa Transcidadania e coordenadora ECOS.

Juny estuda bioética e prevenção de Aids para travestis. Segundo ela, para começar a pensar na sexualidade, normalmente se pensa esses corpos como universalmente iguais, ou seja, dependendo de sua genital, já se projeta seu gênero e sua sexualidade. É um modelo heteronormativo e binário de gênero (onde se diz que o correto é ser heterossexual e onde só há dois gêneros possíveis: homem e mulher, com papéis bem estabelecidos).

As travestis se constituem a partir da transgressão da sua constituição corpórea que escapa das normas heterossexuais e binárias de gênero. Ela transgride para adequar seu corpo ao que sente e deseja. Mas nossa sociedade considera a transgressão algo a ser remediado, punido, evitado, algo anormal. Quem transgride passa a ser um ser visto como abjeto. São considerados “monstros contemporâneos” a serem eliminados.

Os conceitos sobre travestilidades e transexualidades não são fixos e sólidos. São categorias em disputa e constante construção e desconstrução, que tem muito a ver com os locais onde se encontram na sociedade. Hoje existe um movimento para positivar a categoria das travestilidades e transexualidades, para eliminação de estigmas. É preciso parar de ver essas pessoas como sujeitos de doença e passar a vê-las como sujeitos de direito. Para isso, a garantia de direitos deve ser assegurada, como uso do nome social.

Essas identidades são autorizadas como subalternas, de modo que a sociedade só permite a existência delas em determidados horários e locais, à margem – isso significa não sair a luz do dia, ou poder frequentar locais comuns, como supermercados. Além disso, há diferentes marcadores importantes para entender as identidades. As travestis negras, por exemplo, acabam sendo mais vulneráveis a contaminação pelo vírus HIV e também pela violência transfóbica.

Segundo ela, 86% das participantes do Transcidadania está no ensino fundamental. 96% trabalha na prostituição. Isso faz com que a sociedade não as veja como sujeito de direito, mas como sujeitos cujos corpos são hipersexualizados, como se estivessem à disposição do sexo com o outro o tempo todo.  Além disso, o direito a viver e a morrer é tolhido. As mortes registradas como mortes de travestis são arquivadas como mortes por tráfico ou conflito com a polícia, sem investigação. Além disso, após a morte, o direito a identidade de gênero e à dignidade após a morte é negado pelos familiares, que enterram as travestis e transexuais com seus nomes de registro, muitas vezes com roupas do gênero oposto ao reivindicado pela pessoa durante a vida.

Infelizmente existe falta de dados em relação a essas populações. Essa invisibilidade prejudica a luta por direitos. Os avanços são poucos, mas existem. Como o programa Brasil Sem Homofobia, de combate à discriminação, e a Carta do Usuário do SUS, que garante o uso do nome social no sistema de saúde.

Baixe a apresentação clicando aqui.

Envie seu comentário

Por favor, informe seu nome

Nome é obrigatório

Por favor, insira um email válido

Email obrigatório

Por favor, insira sua mensagem

Formação em Direitos Humanos © 2019 Todos os direitos reservados

Design de WPSHOWER