Educação, racismo e representatividade

Vera Lúcia Benedito é Drª em Sociologia/Estudos Urbanos pela Universidade Estadual de Michigan/USA e Professora do Ensino Municipal de São Paulo. Ela explicou em sua apresentação que conhecemos pouco sobre médicas, engenheiras, jornalistas, escritoras e escritores, professoras e professores, políticos negros e negras, lideranças comunitárias, organizações de auto-ajuda e religiosas que fizeram e fazem parte da construção da consciência crítica e intelectual do Brasil.

Historicamente, para os Afro-Brasileiros, a educação sempre representou um parâmetro norteador de mobilidade social e afirmação pessoal. Todavia, ao longo de décadas, esses ideais de desenvolvimento humano têm sido comprometidos pelo impacto de práticas pedagógicas pessoais e institucionais etnocêntricas e discriminatórias. Dentre outros fatores, igualmente importantes, práticas racistas e discriminatórias têm afetado negativamente a formação identitária, e provocado injúrias emocionais e psicológicas na auto-estima de meninos e meninas negras contribuindo para a evasão e ou baixo rendimento escolar dos mesmos, como estudos clássicos sobre o assunto têm demonstrado.

Para ela, os avanços no protagonismo negro na educação vem da conjunção dos seguintes fatores:

  • catorze anos de ações afirmativas nos cursos superiores, e, 12 anos de existência da Lei nº 10639/03 tem resultado nos seguintes desenvolvimentos:
  • aumento significativo e qualitativo de estudantes negros nas universidades públicas e privadas;
  • renovação do conhecimento, sobretudo, em áreas de Ciências Humanas, notadamente, História, Geografia, Sociologia, Literatura, Pedagogia, Religião, etc;
  • liderança crescente dos NEABS (Núcleos de Estudos Afro-brasileiros) das universidades públicas na elaboração de cursos de extensão e especialização sobre a História Africana e Afro-brasileira;
  • Cursos de formação contínua de docentes;
  • Currículos para escolas Quilombolas;
  • Revisão curricular, sobretudo dos livros didáticos e paradidáticos;
  • Tímido aumento de publicações voltadas para a História e Cultura Africana e Afro-brasileira.

Algumas estratégias adotadas envolvem a formação de leitores críticos, com a expansão dos chamados Clubes de Leitores Negros, notadamente, o Quilomboletras em São Paulo, Porto Alegre e Salvador; a expansão das rodas de poesia e saraus nas periferias brasileiras e a proliferação de produções teatrais e audiovisuais, etc.

Apesar destes avanços, o grande desafio é a morosidade na adoção sistemática e ampla das Leis 10.639/03 e 11.645/08 em todo território nacional. As resistências estruturais e não estruturais são imensas. Todavia, podem ser utilizadas como ferramentas conceituais e teóricas que ajudam na desconstrução de percepções falsas sobre e outro e ajudam na construção de uma cultura da igualdade:

  • O livro didático ainda é nos dias atuais um dos materiais pedagógicos mais utilizados pelos professores, principalmente nas escolas públicas onde, na maioria das vezes, esse livro constitui-se na única fonte de leitura para os alunos oriundos das classes populares;
  • O resgate da riquíssima história dos povos africanos, repleta de inovações científico-tecnológicas, sociais, políticas, intelectuais, ajuda a reconstruir a imagem da participação digna e ativa em todas as dimensões da experiência humana, esboçando as possibilidades para seus descendentes nas Américas.

Uma intervenção necessária seria um curso de formação de abordagem psicossocial para gestores escolares sobre o significado amplo do racismo em todas as esferas sociais. Mas a escola sozinha não irá dar conta de resolver o problema da violência real e simbólica dentro do universo escolar, então como as famílias e as comunidades no entorno da escola podem entrar nessa guerra pela formação de cidadãos saudáveis e responsáveis?

Ela finaliza sua fala sugerindo um documentário da BBC sobre racismo, que você pode conferir aqui:

Para baixar a apresentação completa, clique aqui.

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