Docência negra na USP

Viviane Angélica Silva é Psicóloga e doutora em Educação na FEUSP. Ela aponta baixa quantidade de alunos negros na Faculdade de Psicologia da UFMG, onde participou de duas pesquisas: Memória e Trajetórias de Alunos Negros na UFMG e Memória e Trajetórias de Professores Negros na UFMG.

Ela conta que se surpreendeu com a falta de professores e professoras negras quando ingressou na USP, mas explica que a própria fundação da Faculdade tem origem racista, com ideias de eugenia. O debate racial na USP passou por quatro momentos:

O primeiro dos antecedentes, nas faculdades de Direito e medicina e traz as teorias racistas do eugenismo e darwinismo, do branqueamento, da mestiçagem, da imigração (a história da Faculdade de Direito indica que essa ideia saiu do Largo de São Francisco, por parte de diretores da faculdade que ocupavam cargos políticos importante em São Paulo).

O segundo momento está relacionado as questões tratadas no Diploma da Brancura de Jerry D’Avila, onde econtra-se que os mentores da USP, entre eles Fernando de Azevedo e integrantes do Grupo Estadão, após reunião de um conjunto de homens brancos pensando a educação não apenas para São Paulo, mas também para o país, contemplou questões da Revolução de 32 e ficaram conhecidos como fundadores da Educação Nova, assinarando o decreto de fundação da USP (a eugenia estava no cerne do debate). Educação tinha que ser branca para ser eficiente e europeia para esclarecer a população, concepções que atravessam a identidade de universidade que a USP adota, trazendo uma missão de professores estrangeiros para compor a primeira geração de corpo docente da universidade, que tinha como grande mérito serem europeus (franceses, alemães). Um exemplo é Lévi Strauss, que só fez carreira depois que passou por São Paulo.

O terceiro momento é mais para a década de 50 e 60, com a revolução da Escola Paulista de Sociologia, sobretudo na figura de Florestan Fernandes, que denunciou a democracia racial e apontou o racismo – um posicionamento que deve ser problematizado – sem desmerecer sua importância ao apontar essas questões na universidade no cenário paulista. Ainda que a versão na discussão de raça tenha sido a do Florestan Fernandes, esse debate era feito também em outros espaços, inclusive por intelectuais negros.

O quarto momento que é do Kabenguele Munanga, que de alguma maneira é herdeiro da escola de sociologia e é a primeira figura que dá cara ao debate sobre raça na universidade acolhe estudantes negros na USP e vê a entrada de outros pesquisadores e docentes negros na universidade, como Milton Santos e Wilson Nascimento.

A ampliação de acesso teve como consequência a possibilidade de entrada de mulheres e imigrantes nas recém-criadas carreiras de História, Filosofia, Química, Matemática, Letras, Ciências Sociais, Antropologia. Isso permitiu uma mudança no perfil do que hoje é a FFLCH, mas Direito e Medicina continuaram do mesmo jeito.

Ainda que a Faculdade de Direito apresente aspectos problemáticos na discussão de raça, sempre houve a presença de professores negros em seu interior, desde o período escravocrata, como José Rubino, primeiro registro de professor negro, Pinto Pereira, que era “coringa”, uma espécie de professor substituto, que é mencionado como piada pelo Miguel Reale em uma entrevista de revista da USP, o professor Antonio Cesarino que é considerado um grande gênio do Direito Trabalhista (ele foi médico, advogado, administrador) e a professora Eunice Prudente que foi a primeira e até agora a única professora negra da Faculdade de Direito.

 Ela sugere uma leitura sobre a fabricação de nomes de poder pela Faculdade de Direito: Artífices do Poder de Sérgio Adorno.

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