Uma jovem ativista por direitos PDF Imprimir E-mail

A história da Ação Educativa remonta ao ano de 1974, ano de fundação do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), organização que atuava junto a movimentos populares e pastorais. Ao longo da década de 80, articulou-se no CEDI uma equipe de educação, a partir de projeto de alfabetização desenvolvido junto a sindicato de seringueiros liderado por Chico Mendes, acreano que se tornaria ícone das lutas por justiça social e ambiental no mundo.  À época, membros dessa equipe – muitos deles ligados à Ação Educativa até hoje – perceberam que havia um número crescente de instituições trabalhando pela alfabetização de adultos, mas não existiam organizações concentradas no tema da educação escolar, participando dos processos de reflexão, formulação e implementação das políticas públicas setoriais.

“Éramos todos herdeiros do Programa de Educação Popular do Cedi, e com os companheiros daquele momento vínhamos de uma trajetória comprometida com a democratização, com contato estreito com os grupos populares, buscando fortalecer a sociedade civil na luta por um Estado de direito no país”, conta Marilia Pontes Sposito, que presidiu a organização de 1994 a 2004 e hoje é professora titular da Faculdade de Educação da USP.

Simultaneamente, começava a despontar na cena política a questão da juventude, porém também sem instituições não-governamentais que produzissem conhecimento sobre o tema e contribuíssem para a organização e visibilidade dos grupos e demandas juvenis. “Vivíamos a época dos caras-pintadas e percebemos que os jovens vinham protagonizando de forma intensa não apenas movimentos, mas também problemas sociais, sendo muitas vezes identificados equivocadamente como causadores destes problemas, como a violência urbana”, expõe Vera Masagão Ribeiro, coordenadora da Ação Educativa.

Foi a partir desse diagnóstico que, em 1994, alguns dos membros do Cedi decidiram criar uma organização que buscasse suprir essas lacunas e tivesse a missão de promover os direitos educativos e da juventude, sob a perspectiva da justiça social, da democracia e do desenvolvimento sustentável. Nascia a Ação Educativa, hoje uma das mais relevantes organizações não-governamentais do cenário político brasileiro.

Quando iniciou suas atividades, portanto, a Ação Educativa já havia experimentado um longo período de incubação, o que contribuiu para que, no momento de sua criação formal, a organização já possuísse valores e elementos institucionais que permaneceram presentes nestes 15 anos. Os laços de confiança entre muitos dos associados e diretores, fundamentais para o fortalecimento da instituição, foram construídos durante as décadas de 1970 e 80, período ainda marcado pela resistência à ditadura militar. “Vínhamos de uma tradição de defesa das liberdades políticas e da importância do Estado nas políticas públicas, sobretudo educacionais. Concebíamos que essas políticas deviam ser tratadas no campo dos direitos sociais, e deveriam ser estendidas a todas as pessoas sem qualquer discriminação”, lembra Marília.

Desde então, a organização busca aliar o trabalho de pesquisa e produção de conhecimento à incidência em políticas públicas e ao incentivo à participação política dos diferentes sujeitos dos campos da educação, da juventude e, mais recentemente, da cultura. “Este conjunto de estratégias complementares foi, aos poucos, constituindo a identidade da Ação Educativa como uma organização que luta por direitos, que está aberta a novos sujeitos e atores da cena pública e, especialmente, que está disposta a transformar a ser transformada em busca de uma sintonia com as demandas sociais e dos grupos com quem dialoga e de quem é parceira”, conta Vera. “No recente processo de avaliação pelo qual passamos, estas características foram ressaltadas como integrantes do que seria o nosso ‘DNA’, uma espécie de método que desenvolvemos no surgimento da organização e que permanece ativo até hoje”, expõe a coordenadora da Ação Educativa.

Continuidade e consolidação

A história da Ação Educativa após sua fundação em 1994 pode ser dividida genericamente em três fases. O primeiro período transcorreu até 1999, marcado pela continuidade e consolidação do trabalho original feito no Cedi e pelo investimento no desenvolvimento institucional e estruturação da organização. “Tratava-se, sobretudo, de preservar a identidade conquistada arduamente por meio de um esforço coletivo que já durava 20 anos”, conta Marília.

O debate em torno da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), aprovada em 1996, desafiou a Ação Educativa a um trabalho de articulação política maior, por meio da qual ela fortaleceu suas capacidades para gerar ações de incidência no plano institucional e na sociedade civil. Nesse período, a organização cresceu em volume de funcionários – de 19 no início para 50 em 1999 – em paralelo a um aumento de esforços pela sustentabilidade financeira da organização.

Neste contexto, foi fundamental a atuação junto a outras organizações que lutam por direitos e as que atuam do campo da educação. “É também no início dessa década que ocorre a fundação da Associação Brasileira de ONGs (Abong)”, lembra o coordenador da Ação Educativa, Sérgio Haddad, “um espaço de troca política e atuação conjunta fundamental para organizações que buscavam seu espaço na cena política”, conta.

Foi também na última metade da década de 1990 que a organização incorporou em definitivo a perspectiva da defesa dos direitos humanos como referencial conceitual para as suas áreas temáticas e setores internos, permitindo e impulsionando uma maior integração com outras organizações que lutam por direitos, na perspectiva de sua indivisibilidade e do fortalecimento da atuação conjunta. Não por acaso, o momento coincide com a criação da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, rede nacional que integra as campanhas latino-americana e global pela educação.

Trajetória autônoma

A segunda fase da história da organização tem início marcado simbolicamente pela inauguração da sede própria, em 2000, e se estende até 2006. A mudança das salas do Colégio Sion – localizado no bairro paulistano de Higienópolis – para o prédio localizado na Região Central da cidade, que atualmente abriga a Ação Educativa, foi um ponto de inflexão decisivo na história da instituição. A nova sede significou, de certa forma, a possibilidade de construção de uma trajetória autônoma, especialmente do ponto de vista institucional.

Nesse período, o compartilhamento da sede com a Abong e com o escritório nacional do Fórum Social Mundial ajudou a aprofundar a dimensão política da organização, contribuindo para situá-la de forma explícita em um campo ético-político na sociedade civil. “Dividimos o espaço de trabalho com entidades com as quais compartilhamos princípios e estratégias. São parceiros, e o ambiente coletivo facilita o diálogo e a interação entre essas instituições”, diz Sérgio. “A nossa sede é um fator definitivo na agregação de novos sujeitos e temas políticos na vida da entidade”, completa Vera.

A partir de 2003, com a Relatoria Nacional do Direito Humano à Educação sob os cuidados de Sérgio Haddad, a perspectiva de direitos e, em especial, a incorporação da educação como um direito humano se aprofundou dentro da organização. É nesse momento que a Ação Educativa consolida publicamente um trabalho que desenvolvia desde a sua origem com a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e expande as ações voltadas à juventude. “Havia uma ousadia presente, pois era necessário transformar nossas práticas e formas de ação tendo em vista as novas demandas e exigências sociais e políticas do país. Tornava-se desafiador abrir novos campos de interlocução”, lembra Marilia.

No plano da gestão institucional, o período foi marcado pela percepção da necessidade de diversificar as fontes de recursos e parceiros, assim como pela estruturação do setor de comunicação, fundamental para dar transparência e publicidade às iniciativas e posições políticas da instituição.

Em 2003, o início do governo Lula foi também um marco conjuntural do período, trazendo novas questões para o campo da esquerda, demandando a reflexão e a revisão de paradigmas dos atores da sociedade civil orientados pelas perspectivas de direitos. “Não foi uma tarefa fácil nos posicionarmos politicamente naquele momento. Sindicatos e movimentos sociais que se aliaram na reconstrução democrática, ao eleger um candidato que representava suas aspirações, viram-se desafiados a se recolocar em relação ao estado e as políticas públicas. Era uma conjuntura mais complexa, que gerou posicionamentos diversos entre antigos aliados. Muitas vezes, criaram-se situações delicadas entre a Ação Educativa e representantes dos poderes públicos ou parceiros tradicionais, como os sindicatos, mas acho que soubemos navegar bem, reforçando nosso compromisso com as políticas públicas sem perder a autonomia necessária”, afirma Vera.

Novos desafios

Dois dos marcos simbólicos do início do atual período são a constituição da área de cultura e a consolidação da luta contra as desigualdades (especialmente de renda, raça e gênero) como eixo estruturante do trabalho da organização.

Segundo a coordenadora da Ação Educativa, os sujeitos da cultura trouxeram para o dia-a-dia da Ação Educativa uma série de novas questões e um dinamismo que provocaram as áreas já consolidadas da instituição – de educação e juventude. “Os grupos culturais que atuam na cena periférica trouxeram novas práticas, saberes e formas de fazer política, demandando uma reflexão e uma ação especiais. Isso mudou o nosso jeito de olhar para o que estamos fazendo”, afirma Vera.

É também neste mesmo período que os valores da democracia participativa, das diversidades e da justiça ambiental passam a fazer parte da Ação Educativa de forma estrutural, demarcando um novo momento e o horizonte para os próximos anos. Uma das tendências deste novo horizonte é a de uma interação cada vez maior entre as áreas de educação, cultura e juventude. “Precisamos promover um maior diálogo interno entre as três áreas temáticas e delas com os setores que nos ajudam a manter a sustentabilidade político-financeira de toda organização, como a comunicação, o setor de tecnologia e o administrativo-financeiro. Os desafios são grandes, mas construímos valores e práticas que vão nos ajudar a superá-los”, diz a coordenadora da Ação Educativa. “Já estamos inclusive implementando novas estratégias e estruturas institucionais que estão presentes no plano da Ação Educativa para o próximo triênio”, conta. Entre as novas estratégias, descreve Vera, estão as que buscam construir formas de organização e estruturas de gestão que democratizem ainda mais os processos internos.

Marcado pela instabilidade das condições de sustentabilidade financeira e pelo desafio de renovação de paradigmas, horizontes e formas de organização e atuação, o atual momento da Ação Educativa aponta para um novo ciclo. Disposta a encarar as incertezas e atenta aos desafios que se impõem, a organização mira os próximos anos com planos que buscam aliar seus valores fundamentais à luta por um Brasil que garanta os direitos culturais, educativos e da juventude, e onde ativistas, jovens, artistas e educadores tenham condições de elaborar e realizar de forma coletiva seus projetos de vida e sociedade.