Políticas Públicas de Juventude e Participação

Espaços culturais na periferia: mais que alternativo, uma alternativa
PDF Imprimir E-mail
24.01.12   

Por Antonio Eleilson Leite*

Durante os debates em uma das mesas do Seminário Estética da Periferia, realizado pela Ação Educativa em maio de 2011, o cineasta Jeferson De disse que não faria uma exibição de seu recém-lançado, e muito aguardado, filme Bróder no Cine Campinho, contrariando a expectativa de um dos organizadores do movimento de cinema e vídeo de Guaianazes, periferia da Zona Leste de São Paulo, que o abordou com a oferta. Questionado com indignação diante da recusa, o cineasta respondeu: “com todo o respeito, mas campinho é lugar para se jogar futebol. Mas a pré-estreia do filme aconteceu na periferia, rebateu o cineasta. Rodado no bairro do Capão Redondo, Bróder surgiu primeiro na tela de uma das salas do Shopping Campo Limpo, situado na mesma região onde foram filmadas as cenas do longa-metragem, na periferia da Zona Sul da capital paulista.


O cineasta provavelmente quis dizer com isso que uma obra cinematográfica, realizada com todos os predicados necessários a uma produção do gênero, como o foi Bróder, merecia ser exposta numa sala dotada de todas as condições para exibição do filme com qualidade de áudio e imagem, com o conforto e dignidade que o espectador merece. Não se tratava, portanto, de uma desqualificação do movimento cultural que, na falta de outro espaço, improvisa sessões de filmes no campo de várzea da quebrada. Mas, contrariando a vontade de seu diretor, Bróder iria passar lá no Campinho sim, provavelmente, inclusive, com uma cópia reproduzida, digamos, fora dos padrões legais. E assim, uma obra cinematográfica ambientada na periferia, a ela voltaria no melhor estilo “é nóis na fita”.

Essa discussão em torno do filme Bróder é reveladora de questões fundamentais sobre a circulação e produção cultural nas periferias urbanas. Uma dessas questões, como se vê, é o local onde se exibe e se frui um produto artístico. O que há por trás desse aspecto da adequação do espaço à obra a ser apresentada? Será que a exigência de qualidade denota uma visão elitista por parte de um artista que se nega a exibir seu trabalho em condições inadequadas? Por outro lado, arriscar-se no improviso em nome do acesso é uma atitude legítima de quem faz e não espera acontecer?

Talvez não estejamos diante de posições antagônicas, embora claramente distintas. Cada qual tem sua razão e colocá-las em oposição não é o melhor caminho. Conforto e qualidade técnica são quesitos importantes, mas quem deles não dispõe, nem sempre pode esperar e faz acontecer do jeito que dá. O improviso, porém, não quer dizer necessariamente condições precárias. Note o caso da Cooperifa, famoso sarau literário que tem um projeto voltado à sétima arte, denominado Cinema na Laje.  Lá, na cobertura do Bar do Zé Batidão, rola uma concorrida sessão quinzenal com filmes escolhidos pelo seu idealizador, Sergio Vaz, com colaboração de grupos juvenis como o NCA – Núcleo de Comunicação Alternativa. No Cinema na Laje, o som e a imagem são satisfatórios e tem pipoca de graça.

Do campinho para a laje do bar, e de lá, para um desativado galpão da COHAB que virou sede da Cia. De Teatro Pombas Urbanas, no bairro de Cidade Tiradentes, extremo da Zona Leste. Ali também tem cinema, além deteatro, sarau literário e oficinas, entre outras atividades. No Pombas, os espectadores dos filmes encontram som e imagem de boa qualidade e estão livres dos inconvenientes meteorológicos que, vez por outra, atormentam os frequentadores do campinho e da laje do Zé Batidão. E tem o Cine Favela em Heliópolis, maior favela de São Paulo. Um espaço exclusivo para o cinema. Lá a sala de projeção tem qualidade e é bem aconchegante. São espaços que, se não todos criados por jovens, são geridos e programados por grupos juvenis.

Os espaços alternativos de cultura na periferia são menos uma opção diferenciada, frente a uma determinada oferta, e mais uma alternativa diante da escassa ou completa inexistência de equipamentos culturais por excelência, sejam públicos ou privados. Tais espaços invariavelmente são resultado de conquistas de movimentos organizados, principalmente dos grupos juvenis, que acabam nutrindo uma relação de extrema afetividade com esses ambientes e deles não se desfazem, mesmo diante da possibilidade de acesso a um local mais apropriado.

A questão do espaço cultural, portanto, não pode ser reduzida ao binômio adequado/inadequado. Na periferia, o espaço e a obra artística estão imbricados, um dando sentido ao outro, formando uma estética própria. Seja num bar, galpão, numa praça ou no campinho, a atividade artística que ali é exibida passa a ter um glamour próprio da quebrada. Quando falta som ou boa imagem, sobra avidez por arte. Se não tem poltrona estofada e ar condicionado, sobra calor humano. Ao invés de rejeitar espaços assim, os produtores do filme Bróder deveriam estimular sua exibição nos espaços culturais da periferia. Certamente ali, o excelente filme de Jeferson De teria o sucesso que não alcançou no circuito comercial das salas de shopping.

* Historiador, programador cultural, coordenador do Programa de Cultura da Ação Educativa e diretor da Entrelaços Assessoria, Estudos e Pesquisa em Desenvolvimento, Trabalho e Sociedade.

 

Última atualização em 24.01.12
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar