Ação Educativa responde reportagem da Folha sobre violência nas escolas PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Seg, 15 de Maio de 2006 21:00

Reportagem "Projeto reduz indisciplina em área de tensão escolar", publicada na edição de primeiro de maio do jornal “Folha de S. Paulo”, sugere que professores são os maiores responsáveis pela violência instalada nas escolas. Para Ana Paula Corti, assessora do Programa Juventude da Ação Educativa que concedeu entrevista para a reportagem, diz que apresentação de dado descontextualizado induziu à interpretação equivocada.

Confira abaixo a íntegra da resposta enviada ao jornal e a respectiva reportagem:

Sobre a reportagem "Projeto reduz indisciplina em área de tensão escolar"

Gostaria de retificar publicamente algumas informações contidas na matéria “Projeto reduz indisciplina em área de tensão escolar”, publicada no dia 01/05/06, e assinada pelos repórteres Antonio Gois e Fábio Takahashi.

Na entrevista por mim concedida, em nenhum momento afirmei que os professores seriam responsáveis pela violência instalada nas escolas. Entretanto, esta foi a conclusão de várias pessoas ao lerem na matéria um dado da minha pesquisa de mestrado, apresentado de forma totalmente descontextualizada. O jornalista “recortou” um percentual sobre a participação dos professores nas práticas de agressão, sobretudo verbais, que seriam da ordem de 18%, omitindo o outro dado da pesquisa, mais importante, de que os principais agentes das agressões seriam os próprios estudantes (42%).

Gostaria de reafirmar que os profissionais de educação, tanto quanto os jovens estudantes, não podem ser culpados de forma simplista pela situação das escolas. Ambos são alvos e vítimas de um processo de desmonte e descompromisso público com a educação, materializado nas precárias condições  de trabalho dos docentes e da estrutura física, administrativa e pedagógica das escolas e dos próprios sistemas públicos de ensino.

Infelizmente, ao tentar contribuir com abordagens mais plurais nas matérias de educação publicadas na grande imprensa, muitas vezes nossas opiniões e análises acabam sendo distorcidas na edição final das matérias. É uma pena, pois todos perdemos quando isso acontece.

Ana Paula Corti 

Metade dos docentes já foi xingada por aluno

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL


Em uma aula de ciências na 8ª série de uma escola municipal na Vila Prudente (zona leste de São Paulo), o professor José Jacinto dos Santos Júnior, 55, percebeu que era alvo de piadas e até de ofensas proferidas por Pedro (nome fictício), 17. Questionando o conteúdo ensinado, o estudante saiu da sala, sem pedir permissão.

Como tais indisciplinas eram constantes, Santos Júnior pôs em prática uma medida previamente acertada com seu coordenador pedagógico: trancar a porta da sala, com Pedro do lado de fora, para mostrar à direção que ele não permanecia nas aulas. O estudante não gostou da medida e começou a chutar a porta, aos berros.

A tensão na vida escolar, bem como outras formas de violência, foi estudada pela Unesco, MEC e Observatório de Violência nas Escolas e gerou o livro "Cotidiano das Escolas: Entre Violências".
Uma das conclusões do trabalho é que as escolas não apenas refletem a violência que acontece fora delas mas também produzem a sua própria. A análise foi feita em seis capitais do país, entre elas São Paulo, envolvendo 13 mil alunos de colégios públicos.

A pesquisa mostrou que 47% dos professores ou funcionários já foram xingados por alunos e que 51% dos estudantes consideram o clima na escola ruim, péssimo ou mais ou menos.

Um agravante detectado pela pesquisa é que, quando esses casos acontecem, a escola é a última a saber. Os entrevistadores perguntaram para quem os jovens contam os problemas da escola. As respostas mais citadas foram os parentes (58%), amigos da escola (45%), amigos fora da escola (28%) ou ninguém (14%). Todas essas opções -era possível escolher várias- apareceram na frente do diretor ou do docente (11%).

Aprendizagem

"Essa violência no cotidiano da escola -que acontece por meio de agressões verbais, xingamentos e das próprias relações sociais- têm graves conseqüências. Como o aluno vai aprender num clima escolar como esse, em que existe uma banalização completa da incivilidade?", afirma a socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da pesquisa. "Quanto mais há xingamentos na escola, maior a probabilidade de haver agressão física", constata.

No caso do aluno colocado fora da sala pelo professor Santos Júnior, a tensão quase resultou em pancadaria. À batida do sinal para troca de aula, o professor virou a chave para abrir a classe. Alguém do lado de fora empurrou a porta, que atingiu outro aluno -sua mão começou a sangrar.

O ferimento causou revolta em parte dos estudantes, que atacou o professor. Uma carteira foi arremessada contra ele. O docente escapou, mas a cadeira quebrou uma das vidraças. "Só não fui linchado porque entrou a turma do deixa disso", lembra ele.

A professora de língua portuguesa Roberta (nome fictício), 51, também passou por um momento de violência. Um aluno de sexta série, com 12 anos, constantemente a ironizava, em um colégio estadual da zona norte de São Paulo. Até que a docente colocou o estudante para fora da sala.

Na porta, o jovem continuou fazendo provocações. "Toquei no ombro dele, para pedir que ele saísse. Nesse momento, ele começou a me chutar", conta Clara.

Indutor

Para a socióloga Ana Paula Corti, assessora da ONG Ação Educativa, a falta de estrutura das escolas -tanto físicas quanto pedagógicas- explica a geração de violência nesses locais.

"Se o que está sendo oferecido e ensinado não fazem sentido para o aluno, ele se desinteressa. Assim, a relação entre as pessoas fica desgastada", afirma Corti.

Em sua tese de mestrado na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), a socióloga analisou a violência de uma escola estadual da zona leste de São Paulo. Ela entrevistou 700 alunos do ensino básico. Uma das constatações foi que 42,5% das agressões relatadas (na maioria verbais e morais) ocorreram dentro da sala de aula.

"A escola hoje é apenas uma fábrica de aulas. O professor tem dezenas de classes, com 40 estudantes cada. É quase impossível haver uma relação entre eles", diz.

Última atualização em Seg, 13 de Agosto de 2007 15:19
 

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