Elaboração de projetos sociais PDF Imprimir E-mail
Qua, 09 de Abril de 2008 12:04
Leia artigo de Marcos José Pereira da Silva, publicado na Revista Carta na Escola. Marcos é Coordenador Administrativo e financeiro da Ação Educativa e consultor em planejamento e elaboração de projetos.


1) Por que elaborar projeto?

O termo projeto carrega o sentido de organizar idéias, pesquisar, analisar a realidade e desenhar uma proposta articulada com intencionalidade.
Os projetos sociais seguem esta lógica. São construções para prever o que um grupo de pessoas quer realizar para transformar boas idéias em boas práticas.  Colocados em seu devido lugar, tais projetos podem se transformar em ações exemplares que modificarão a realidade local.
Se, além de se constituir de ações exemplares, o projeto se integrar a governos locais, municipais, estadual e federal, poderá ser replicado em escala maior, gerando, assim, políticas públicas de qualidade na área social, cujo impacto para a coletividade é maior que o do projeto apenas local.
Nos programas de governo, muitas vezes expostos em períodos de eleição, ouvimos candidatos e governantes dizerem que têm projetos para solucionar os problemas do desemprego, da saúde, da educação. Em parte, isso é possível. Havendo um bom projeto, com recursos suficientes, bem monitorado e avaliado, se chegará aos objetivos preestabelecidos.
Nestas situações em que desejamos transformar insatisfação em solução; idéias em ações; boas intenções em propostas efetivas; um conjunto de tarefas em ações concretas, sem o desperdício de tempo e recursos, faz-se necessário elaborar um projeto que descreva o caminho a seguir, com lógica e paixão que nos conduzam na direção do que queremos.

2) Cuidados e recomendações

Durante o processo de elaboração de projetos, pode-se correr dois grandes riscos: o da onipotência ou o da impotência.
Um grupo pode sentir-se onipotente quando considerar que tem a possibilidade de transformar, sozinho, os problemas sociais existentes em um bairro ou cidade. É o perigo do voluntarismo.
Seu oposto é a impotência. Sabendo ser difícil ou mesmo impossível resolver, isoladamente, os problemas encontrados, o grupo julga não poder fazer nada e desiste de buscar soluções criativas.
Esses dois grandes riscos, freqüentemente, têm como raiz pelo menos três fatores. O primeiro deles é o diagnóstico superficial sobre o espaço e o contexto em que o grupo atua. O segundo reside na análise inconsistente da viabilidade social, política, técnica, financeira, ambiental, étnico-racial e cultural do projeto. O último é a distribuição de papéis e das responsabilidades, de modo a centralizar o poder em uma única pessoa ou a diluí-lo, de modo a dificultar a constituição de líderes.
Na prática, existem dificuldades em estabelecer resultados concretos e custos efetivos de modo preciso nos projetos sociais que lidam com processos de melhoria das condições de vida e com a promoção dos direitos humanos.
Ainda assim, para superar essa dificuldade e realizar algo de efetivo, é necessário construir um caminho baseado em resultados ou metas, organizado no tempo, planejado, executado e monitorado. Sobretudo, não parar nas boas intenções. Transformá-las em obras, isto sim.

3) Sugestões para elaboração de projetos sociais

O processo de elaboração de projetos sociais supõe dois grandes momentos: o de elaboração e o de redação do projeto.
No momento de elaboração do projeto, o grupo deve dedicar tempo para realizar um bom diagnóstico sobre o contexto e a situação problemática que pretende enfrentar; analisar seu potencial. Em seguida, construir seu caminho. É preciso que todas as pessoas envolvidas no projeto dele participem diretamente na fase de elaboração com visão ampla e criatividade na busca de viabilidade.
O momento de redação do projeto é um exercício de síntese do processo anterior. Nele, é melhor contar com poucas pessoas do grupo. Tudo que foi produzido no tempo anterior será agrupado em um roteiro que demonstre, de modo objetivo, o que será realizado.

3.1 Momento de elaboração do projeto

Para eficiência na elaboração do projeto, sugerimos que o grupo siga 8 passos.

Primeiro: Definir quem é o grupo que elabora o projeto.
Tal grupo verificará com quantas pessoas contará efetivamente para realizá-lo, ou seja, qual seu poder real ou o “tamanho das pernas que têm”.

Segundo: Montar duas listas paralelas, a dos problemas que o grupo pretende superar e a das soluções para esses problemas.
É imprescindível que os problemas sejam concretos e observáveis. Eles devem ser formulados com clareza. Exemplo: na lista dos problemas, deve constar “poucas alternativas de cultura e lazer para jovens da Vila Nova Cachoeirinha”. E, na lista das soluções, deve constar “alternativas de cultura e lazer acessíveis para jovens da Vila Nova Cachoeirinha”.

Terceiro: Escolher o problema principal.
Dentre todos os problemas listados, o grupo deve escolher por qual começar. Esta escolha considera vários critérios. Um deles é o impacto negativo que o problema causa para a comunidade ou escola. Outro critério é a capacidade do grupo para resolver o problema. Neste caso, decide-se iniciar o projeto justamente por aquele mais fácil, cuja solução esteja mais à mão.

Quarto: Montar uma árvore com o problema escolhido, suas causas e suas conseqüências.
As causas do problema estão no que o origina e o mantém, estão em sua raiz. As conseqüências são os danos causados pelo problema. Perceber a diferença entre causas e conseqüências ajuda o grupo a não gastar recursos financeiros e tempo apenas com os efeitos, que não é exatamente onde o grupo deve agir.

Quinto: Definir objetivos gerais e específicos; resultados previstos, indicadores, fatores de risco e plano de ação.


Objetivo geral
Aonde o grupo pretende chegar? Vincula-se a outras iniciativas que extrapolam os limites do projeto. Seria o degrau mais alto de uma escada.

Objetivos específicos
Representam a finalidade do projeto em questão. São degraus para chegar ao topo da escada, ao objetivo geral. Eles indicam o caminho a ser percorrido.

Resultados ou metas
São tangíveis e correspondem aos produtos finais de um conjunto de atividades em um certo período. Quantificam as atividades que serão desenvolvidas, bem como sua intensidade. Qualificam o modo pelo qual o projeto será realizado, os valores que o grupo quer imprimir a ele. Ex. Ter realizado 10 atividades (quantificam as atividades) de manejo sustentável (qualificam o tipo de manejo).

Indicadores para o monitoramento dos resultados
São os sinais de que o grupo está perseguindo os resultados do projeto. Exemplo, número de participantes de uma atividade.

Fatores de risco
São obstáculos com os quais o grupo deverá conviver, sejam eles políticos (um grupo poderoso contra o projeto), culturais (mentalidade de desperdício de recursos, preconceito) que fogem ao controle do grupo, mas podem dificultar a realização do projeto. Recomenda-se desenhar ações para minimizar esses fatores de risco.

Plano de ação
Descreve o que precisa ser feito para se chegar aos resultados. É o conjunto de ações, com seus respectivos prazos, as pessoas responsáveis por elas e os recursos necessários para executá-las.

Sexto: Análise de viabilidade do projeto.
Verificar se o grupo pode realizar o plano a que se propôs. Para tanto, é importante realizar seis análises de viabilidade: econômica, social, política, técnica, ambiental, de gênero e étnico-cultural.
Viabilidade econômica
Considerar o custo total do projeto. Comparar se o total dos recursos de que o grupo dispõe somado ao que poderá captar cobre os custos do projeto.
Viabilidade social
Analisar os atores sociais (indivíduos ou organizações) que terão seus interesses afetados positiva ou negativamente pelo projeto.
Viabilidade política
Verificar as pessoas, grupos e instituições que apóiam o projeto e se há obstáculos políticos ou legais que poderão atrapalhar sua realização. Prever ações para superá-los.
Viabilidade técnica
Explicitar as técnicas que serão utilizadas e considerar se o grupo dispõe destas tecnologias.

Viabilidade ambiental.
Analisar se o projeto agride o meio ambiente.
Viabilidade de gênero, étnica e cultural.
Analisar se há algum padrão cultural que pode dificultar a realização do projeto, seja ele na relação homem com mulher, nas relações étnico-raciais ou nas relações culturais.

Sétimo: Cronograma de trabalho.
Deve conter data de início e término do projeto. Recomenda-se fazer uma tabela com as metas planejadas pelos meses de duração do projeto. Distribuir nos meses em quais deles acontecerão as atividades preparatórias, de execução, atividades de monitoramento e de avaliação.

Oitavo: Orçamento detalhado das despesas.
Prever custo de equipe de trabalho, infra-estrutura e material necessário. É sempre bom reservar recursos para gastos com impostos e despesas imprevistas.


3.2 Momento de redação do projeto

O projeto será sintetizado em 5 grandes itens.

1) Página de abertura
Título do projeto (que expressa sua idéia central); nome e sigla da instituição proponente, seu endereço e a data.
Resumo. Apresenta, em poucas palavras, o objetivo geral, os objetivos específicos, os resultados previstos, os beneficiários e os custos.

2) Justificativa
Ressalta a importância do projeto. Informa os problemas que o projeto resolverá no contexto em que está situado. Relaciona o problema nos âmbitos, nacional, estadual e local. Demonstra como as políticas públicas tratam deste problema. Caracteriza os beneficiários diretos e indiretos e grupos que têm interesses em relação ao projeto.

3) Metodologia e lógica da intervenção
Apresenta a seqüência lógica entre objetivo geral; objetivo específico; resultados esperados; indicadores; plano de ação
Fatores de risco. Descrever as iniciativas que serão tomadas para monitorar e minimizar os fatores que podem pôr o projeto em risco.

4) Orçamento e proposta de financiamento
Apresenta uma planilha com os custos unitários por rubrica e o custo total do projeto

5) Anexos
Diagnóstico. Informações relevantes sobre o contexto em que se realizará o projeto.
Informações adicionais sobre os proponentes do projeto.


Saiba mais

CORROCHANO, Maria Carla, WRASSE, Dílson. Elaboração participativa de projetos: um guia para jovens. São Paulo: Ação Educativa, 2002. 76 p. Disponível em: www.acaoeducativa.org.br (consulta em Março de 2008)

SILVA, Marcos José Pereira. Onze passos do planejamento estratégico-participativo. São Paulo: CDHEP, 2001. Disponível em www.cdhep.org.br (consulta em Março de 2008)

ARMANI, Domingos. Como elaborar projetos? Guia para elaboração e gestão de projetos sociais. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2001 (Coleção Amencar).


 

Comentários  

 
0 #1 aparecido 22-12-2011 10:42
olá,gostaria de parabenizá-los por conceder um site para auxiliar a todos que como eu tem um desejo de realizar algo que traga benefícios as pessoas necessitadas, carentes de atenção.
sucesso e saúde á todos que colaboram com este importante veiculo.
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