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Semeando asas na quebrada paulistana |
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De como a trupe teatral Pombas Urbanas, criada por um peruano, chegou a mudar o nome do Brasil, trocou os palcos pelas ruas, sofreu a perda trágica de seu criador mas reviveu, animada pela gente forte da periferia — para onde regressou e de onde não pretende se afastar...
Eleilson Leite (02/06/2008)
Marcelo, Paulo, Juliana, Marcos e Adriano eram adolescentes no ano de 1989. Todos moravam em São Miguel Paulista, tradicional bairro suburbano da zona leste de São Paulo. Faziam parte de um grupo de teatro. Com eles, outros 25 jovens compartilhavam o sonho de se tornarem atores. Simplesmente atores e atrizes. Ganhar a vida com teatro? Não. Isso não fazia parte do imaginário onírico dessa trupe. A ribalta tampouco lhes atraía. Esses jovens preferiam a rua ao palco. Mas não as alamedas e avenidas do centro da capital. Eles queriam os becos e vielas da periferia.
Esses cinco adolescentes hoje são adultos, todos com trinta e poucos anos. São os remanescentes do grupo dos trinta jovens, que há 19 anos tiveram sua primeira experiência teatral com o espetáculo Os Tronconenses. Esse estranho termo identificava os moradores de Tronconé, um outro nome para o Brasil. Uma nomenclatura extraída da fala de uma japonesa que tentava explicar que Brasil vem de Pau Brasil, “um tronco, né?”. Desde então, eles nunca deixaram de ser tronconenses. Tronco duro de quebrar. Madeira que cupim não rói, como diria Ariano Suassuna.
O quinteto de atores está à frente de um dos projetos culturais mais antigos e importantes da periferia de São Paulo. Trata-se do Instituto Pombas Urbanas, que desde 2004 tem sua sede no bairro de Cidade Tiradentes, extremo leste da Capital. Antes de voltar para a periferia, passaram 15 anos sediados no centro da cidade, atuando como companhia de teatro. Eram dirigidos pelo dramaturgo peruano Lino Rojas, radicado em São Paulo. Ainda em São Miguel, ele organizou o grupo, dirigindo Os Tronconenses. Com ele, montaram outros cinco espetáculos: Mingau de Concreto; Ventre de Lona; Buraco Quente; Uma Baleia Perto da Lua e Todo Mundo Tem Um Sonho. Sou um privilegiado. Assisti a quatro dessas peças. Ventre de Lona, pude ver uma porção de vezes. Uma dramaturgia e tanto. Lino assinava os textos e direção, mas tudo era discutido e produzido coletivamente, baseado na idéia da formação orgânica do ator que, além de interpretar, cria, produz e administra. Um conceito que para Rojas era a base para a manutenção do grupo. E ele estava mais do que certo. Sem grana — mas com esforço, esmero e ajuda da comunidade, reformam um galpão abandonado. Revivido, o local chama atenção de todos. Então, vem a perda trágica de Lino Rojas
Não foi fácil a vida desses jovens atores, nos anos vividos no centrão. Mas foram tempos de muitas descobertas, conquistas, desenvolvimento pessoal e profissional. Naquele período, aprenderam a se virar com o teatro. Davam oficinas em ONGs, escolas, universidades e empresas. O prestígio do grupo aumentava a cada dia e pintavam com mais freqüência apresentações em unidades do SESC ou em outros espaços onde a montagem era remunerada. A bilheteria dos espetáculos sempre ajudava a cobrir as contas. Nada de Lei Rouanet ou qualquer tipo de patrocínio privado. Nessa época, o grupo tinha dez integrantes.
Em 2003, o Pombas Urbanas tornou-se uma ONG, virando um Instituto. Concorreram no primeiro edital da Lei de Fomento ao Teatro de São Paulo e foram contemplados. Um horizonte se abria: “vamos voltar para a periferia!”, decretaram. Durante uma capacitação que davam para a COHAB, em um conjunto habitacional na zona sul, receberam uma proposta do diretor de patrimônio daquele órgão. “Vocês querem ocupar um galpão abandonado que fica na Cidade Tiradentes?”, perguntou Altemir Antonio de Almeida. Era a glória para o grupo. Já tinham o recurso da Lei de Fomento, agora teriam o espaço.
O galpão era enorme e muito bem localizado. Mas estava abandonado havia 10 anos. Não tinha teto, não tinha nada. Com muito esforço, esmero e ajuda da comunidade, foi aos poucos ganhando uma nova roupagem e passou a chamar a atenção de todos. Em 2005, porém, já sem a grana da prefeitura, vivendo do trampo das oficinas e outros corres, com o povo na porta em busca de atrações, uma tragédia cai sobre o Grupo: Lino Rojas morre. E as circunstâncias de sua morte não poderiam ser mais trágicas.
Em meados de fevereiro, o diretor desaparece. O desespero toma conta do grupo, familiares e amigos. A polícia é acionada e promove intensas buscas. Alguns dias depois, o corpo é encontrado dentro de seu carro, abandonado num matagal na periferia de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. O inquérito concluiu tratar-se de seqüestro-relâmpago, modalidade de crime muito em voga naquela época em São Paulo. O dramaturgo peruano, que chegou em São Paulo em 1975, trazendo na bagagem um enorme conhecimento do que chamamos de teatro de rua ou teatro comunitário, conquistou rapidamente um importante espaço na cena teatral em São Paulo. Ele era da geração 68 e faria 65 anos em 2008. Parecia o fim. A história só mudou quando a mãe de uma adolescente que freqüentava o espaço o abordou. Com a contundência de uma autêntica tronconense, levantou a moral da trupe
O grupo sentiu o golpe. O galpão, que já não tinha teto, perdeu o chão. Lino Rojas era a base de tudo para o Pombas Urbanas. Durante dez dias, o Centro Cultural Teatro em Construção, nome da sede, fechou suas portas. Parecia ser o fim, 15 anos depois do começo. Adriano Mauriz, um dos cinco “sobreviventes”, conta que o curso da história mudou quando a mãe de uma adolescente que freqüentava o Espaço os abordou. Com a contundência de uma autêntica tronconense, ela levantou a moral da trupe contando que sua filha estava todos aqueles dias chorando por causa do fechamento do galpão. Sem eles por ali, seria como se a esperança abandonasse a comunidade, argumentava, já sem esconder também suas próprias lágrimas.
O grupo se reergueu. As oficinas e espetáculos foram retomados. Lembro-me que, naquela época, o Pombas Urbanas procurou a Ação Educativa em busca de doações básicas, como cadeiras, mesas, prateleiras, equipamentos de som e imagem. Foi um tempo de muito sacrifício, mas também de muita solidariedade. A gente sempre fica mais forte quando se levanta do tombo. E o Pombas nunca mais caiu, ainda que tenha tomado umas pancadas nesses últimos três anos. Apareceu recurso para concluir a estrutura básica do Galpão. Tornaram-se OSCIP, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Disputaram e foram contemplados em vários editais públicos, como o VAI – Valorização de Iniciativas Culturais, da prefeitura de São Paulo, e o PAC — Programa de Ação Cultural paulista. Tornaram-se Ponto de Cultura, pelo ministério da Cultura, e Casa Brasil, pelo ministério da Ciência e Tecnologia. Ampliaram a programação, que se tornou mensal, com cursos e mostras de filmes, além dos espetáculos de teatro.
Em 2007, o Pombas Urbanas conseguiu, depois da segunda tentativa, aprovar o Projeto Semeando Asas, no edital do Instituto Votorantim. Esse foi o primeiro apoio privado que o grupo teve, em toda sua história. Mas como os projetos aprovados por este instituto devem também ser aprovados pela Lei Rouanet, acaba se tornando recurso público, já que é renúncia fiscal. Seja como for, o patrocínio está viabilizando um belo projeto que promove espetáculos de teatro nas ruas e praças da região e também no Espaço Cultural. O Pombas tem conseguido, com esse e outros investimentos, atuar como uma incubadora de grupos de teatro. O novo espetáculo do grupo é Histórias para Serem Contadas. Traz casos de gente comum e procura responder a um desafio lançado por Octavio Ianni já nos anos 1970
Situado na avenida dos Metalúrgicos, importante corredor da Cidade Tiradentes (um distrito com mais de 300 mil habitantes), o Espaço de Cultura Teatro em Construção tem 1500 pessoas cadastradas no Telecentro, 800 inscritos na biblioteca comunitária, 390 matriculados nos cursos e oficinas, além das centenas de pessoas que assistem aos espetáculos de teatro e exibições de filmes, entre outras atividades. Há também o pessoal envolvido em projetos como o Canto das Letras, de incentivo à leitura e Somos do Circo, voltado para o público infanto-juvenil, além do Semeando Asas. Tudo gratuito.
Estive lá no mês passado. Fui levar pessoalmente umas belíssimas molduras, doadas pela produtora cultural brasiliense Odila Bohrer. Elas foram utilizadas na exposição fotográfica Simples Mulheres em Tempos Extraordinários, que estava em cartaz no Centro Cultural da Caixa, na Praça da Sé, em São Paulo, no início do ano. A produtora gostaria que o material fosse entregue a algum grupo juvenil comunitário da cidade e solicitou uma indicação à Ação Educativa. A doação não poderia ter tido destino melhor. Ao chegar no galpão, encantei-me com o lugar, que está todo grafitado com desenhos do Tota e dos grafiteiros do Cinco Zonas de Graffiti. O centro cultural exibe uma fachada bonita, cheia de logomarcas da prefeitura, governos estadual e federal e outros apoiadores, mostrando a vitalidade das parcerias estabelecidas pelo grupo.
O Pombas Urbanas está trabalhando um novo espetáculo adulto. É a primeira montagem criada após a morte de Lino Rojas. A peça chama-se Histórias Para Serem Contadas, de Osvaldo Dragum, dramaturgo argentino. São histórias de gente comum. Segundo Adriano Mauriz, o texto expressa bem o momento em que o grupo vive em termos de pesquisa teatral. O sociólogo Octavio Ianni já dizia, nos anos 1970, que a compreensão do homem comum se configurava num dos maiores dilemas do pensamento brasileiro [1]. O Pombas Urbanas, compartilha dessa busca. Adriano, Marcelo, Marcos, Paulo e Juliana, hoje mulher e homens adultos, querem contar histórias. Histórias como a daquela mulher simples que os fez levantarem do chão com seu apelo. Uma súplica que remetia ao sonho de adolescente que fez surgir, nas ruas de São Miguel, o Pombas Urbanas. Trupe de tronconenses que glorificam todos aqueles que têm o teatro como missão.
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