Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto PDF Imprimir E-mail
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Qui, 21 de Agosto de 2008 14:18

Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto (presidente do Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo - Udemo)

Quais são as causas da rotatividade dos profissionais da educação?

A rotatividade, do meu ponto de vista, é prejudicial. Ela explica determinadas situações, mas não todas que temos hoje no ensino público. Parece-me que há um aspecto fundamental: o momento que reúne o professor e o aluno. Esse é um momento em que, com todas as distorções, deve ser produzida alguma coisa positiva, e não é o que nós estamos observando hoje.

Se julgarmos que o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) realmente detectam problemas sérios, temos que ter alguma reflexão. Grande parte das escolas não tem projeto pedagógico, o que significa que a escola como um todo, o coletivo, não faz reflexões a respeito daquilo que está ocorrendo na escola. Ela não tem diagnóstico e não há reflexões sobre esse diagnóstico. Isso significa que os problemas pedagógicos ocorrem sistematicamente, mas que quando detectamos é muito tarde, tudo já aconteceu. O prejuízo já ocorreu, e nós vivemos permanentemente nesse ciclo vicioso.

Quais são as formas de superação?

Enquanto a escola não tiver realmente seu projeto pedagógico, porque o projeto pedagógico é basicamente uma reflexão sobre a escola a partir de seus membros, não vamos ter solução para esses problemas. Apesar de criticarmos uma série de questões, como a rotatividade e a falta de estrutura, nunca teremos uma escola ideal, com todas as condições que queremos. Mas, evidentemente, o processo pedagógico tem que ter minimamente uma solução de continuidade e de sucesso, porque se, por muitos aspectos, culpamos o sistema por não nos dar condições, esquecemos que temos uma responsabilidade na escola. Cada profissional tem uma responsabilidade dentro da escola e ninguém quer discutir isso. O professor não é nenhum coitadinho, e também não é culpado. É uma somatória de problemas que envolve o poder público e a escola como um todo. Cada um tem que dar a sua contribuição. Parece-me que, pelos resultados das avaliações, se as considerarmos verdadeiras, também não estamos dando a nossa contribuição. Essa é uma questão muito séria e eu admito que o Estado tenha uma responsabilidade maior por ter meios para criar condições melhores de trabalho, mas não posso me eximir da responsabilidade que tenho no momento em que estou com o aluno. Não se trata de ter preconceito ou criticar o professor, mas é uma questão para refletir e aprofundar essa reflexão, com vistas a, efetivamente, tornar aquela escola que tinha problemas uma escola que está evoluindo.

Mas diante dessa questão da construção de um projeto pedagógico, a rotatividade não tem centralidade?

Não, acho que essa questão é tópica. Não são todos os professores que se removem. Tem um núcleo dentro da escola permanente e ainda assim muitas não funcionam. Mas, por que muitas funcionam? O estado tem 5.300 escolas, pelo menos 10% ou 12% de escolas funcionam maravilhosamente bem, desenvolvem muito bem seu projeto pedagógico. Como se explica isso? Essa é a questão. A rotatividade prejudica? Prejudica, é claro. Agora, ela é tópica. Não são todos os professores que se removem ou ficam doentes. Isso é um reducionismo. A questão é tópica e não explica uma escola tão ruim como a que nós temos hoje. Enquanto ela não tiver um projeto pedagógico que impulsione, não vai resolver o problema. E não vamos ter mesmo essa escola que queremos, nunca. A não ser que haja uma mudança radical no país, que os governos façam políticas nacionais pra valer, que você tenha uma sociedade que pressione no sentido de ter uma escola de qualidade. A sociedade não pressiona nada. A comunidade escolar não exige uma escola de qualidade. Ela deveria estar exigindo de quem? De quem está trabalhando lá dentro!

Agora, veja bem, é preciso projeto político pedagógico na medida em que os professores se posicionem em defesa de seus interesses pedagógicos. Você quer um exemplo? A apostila que foi enviada para as escolas, do meu ponto de vista, tem que ser encarada como uma contribuição a mais dentro da escola, mas não uma camisa de força. Você percebe até que ponto estamos absolutamente omissos em relação a algumas questões? Se eu fosse do sindicato do magistério, iria dizer: “esse material não é obrigatório, portanto, professor, você use porque é mais uma contribuição.” O livro didático não é obrigatório, é apenas um auxiliar do trabalho. Então, veja como estamos perdendo a consciência política dentro dessas distorções que ocorrem na escola pública.

Referência ao material didático-pedagógico distribuído pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, em 2008, no âmbito da série de iniciativas denominadas São Paulo Faz Escola.

Última atualização em Sex, 29 de Agosto de 2008 09:42