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Entrevista com o professor Márcio Hoff
Graduado em Sociologia, pela Unisinos. É especialista em Ensino Religioso pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo e Mestre em Sociologia das Organizações pela PUCRS. Também é mestrando em Educação na UFRGS, onde desenvolve pesquisa sobre a educação cooperativa como princípio educativo em uma cooperativa agrícola localizada em um assentamento do MST, no município de Charqueada, e de especialização em Educação Profissional Técnica de Nível Médio Integrada a Educação Básica na Modalidade Educação de Jovens e Adultos na FACED/UFRGS.
Ação Educativa - Como surgiu a ideia de inscrever um projeto para o Prêmio 2008?
Márcio Hoff - Trabalhei como professor de ciências sócio-históricas durante o período de junho de 2006 a setembro de 2008, da turma de EJA "Filhos da Terra". Um projeto especial de escolarização voltado para as famílias do Assentamento 30 de Maio do MST. As aulas ocorriam no turno da noite na Escola Municipal São Francisco de Assis, localizada dentro do Assentamento. Mas como essa escola só possui ensino fundamental incompleto, a Escola Municipal Pio XII, localizada no centro do município de Charqueadas, assumiu a responsabilidade de montar o plano pedagógico, escolher os professores e certificar os jovens e adultos ao término do processo de escolarização. Ocorre que no turno da manhã, a escola São Francisco de Assis é responsável pela alfabetização e escolarização de crianças filhas dos assentados. A escola é multiseriada e vai da pré-escola ao 4º ano. Em janeiro de 2008, em função do baixo número de crianças matriculadas na escola do Assentamento, houve uma ameaça de encerrar as atividades nesta escola e deslocar as crianças assentadas para estudar em escolas municipais localizadas na área urbana da cidade. Sob esta ameaça, pensei que no ano seguinte, poderia ter um numero ainda menor de crianças matriculadas na Escola São Francisco de Assis. Então fiquei pensando o que se poderia fazer na escola caso ela viesse a fechar suas portas. Pensei em um laboratório de desenvolvimento sustentável, no qual as escolas municipais localizadas na cidade, poderiam montar projetos de desenvolvimento sustentável e praticá-los dentro da área do Assentamento 30 de Maio, aproveitando o espaço da escola que lá existe. Foi então que em abril de 2008, num intervalo de aula, na sala dos professores, me deparei com a revista Carta na Escola e, para minha surpresa, um concurso para inscrever projetos de desenvolvimento sustentável a serem implementados por uma comunidade escolar. Não hesitei e comecei a montar um projeto que pudesse beneficiar mais que uma comunidade, pois o mesmo englobava uma comunidade escolar urbana e outra rural.
AE - Vocês já tinham um projeto inicial ou foi uma ideia totalmente nova?
MH - A ideia foi totalmente nova, apesar de que desde o início do ano de 2008, eu estar incomodado com a possibilidade de futuramente a Escola Municipal São Francisco de Assis vir a encerrar suas atividades sob a alegação de que existem poucos alunos matriculados na escola. Eu queria demonstrar com o projeto que é perfeitamente possível utilizar a escola como uma referencia em futuros projetos ambientais e de desenvolvimento sustentável, uma vez que está localizada no interior de um assentamento rural do MST e, esse fato possibilita que, além do espaço da escola, utilizemos também o espaço físico do assentamento para desenvolver atividades práticas, como o que estamos realizando atualmente na horta da cooperativa dos assentados, onde os alunos da escola rural auxiliam quatro turmas da escola urbana nas técnicas de plantio de sementes em bandejas, acompanham seu desenvolvimento na estufa e, depois, auxiliam no transplante das mudas para os canteiros cedidos para o projeto Saberes que Brotam da Terra. Ali, os alunos aprendem os cuidados com a terra, com as mudas, a constante limpeza dos canteiros e o manejo com a terra. Também aprendem a produzir adubo orgânico através da composteira. No reinício do segundo semestre, que ocorrerá na segunda quinzena de agosto, faremos um mutirão de alunos, pais e professores e, com o auxilio dos assentados e de técnicos da Secretaria de Agricultura e Economia Popular e Solidária do município. Iremos construir a técnica do relógio do corpo humano (canteiro em forma de relógios e dividido em 12 partes. Em cada parte ocorre o plantio de uma espécie de erva medicinal que tem uma utilidade especifica para o organismo humano). A parte teórica do projeto é desenvolvida na Escola Urbana, em horário de aula dos próprios alunos que vão ao assentamento em turno inverso.
AE - Quais parcerias vocês constituíram para realizar o projeto?
MH - A parceria mais efetiva se deu com o processo de participação dos assentados, inclusive contando com o auxílio dos assentados que participam do projeto de escolarização no nível da EJA. Uma noite entrei na sala de aula e pedi o auxilio deles para constituir a parte prática do projeto. Nesse sentido, eles foram protagonistas, pois me proporcionaram o conhecimento de que tipo de materiais seriam necessários adquirir para que o projeto pudesse de fato ocorrer. Assim também ocorreu com a escolha das culturas a serem cultivadas. Foram os alunos da EJA do Assentamento que se transformaram em professores nessa noite, possibilitando-me todas as dicas de como o projeto poderia ocorrer sem maiores percalços, através da aquisição de determinados tipos de ferramentas e sementes que pudessem ser bem utilizadas no desenvolvimento do projeto. Depois, o envolvimento e o apoio das direções da Escola Municipal São Francisco de Assis (rural) e da Escola Municipal Pio XII foi fundamental para que eu pudesse montar o restante do projeto. Então, nesse sentido, o projeto foi sendo montado como um "quebra-cabeças" e, no final de sua elaboração, achei que o seu resultado seria muito positivo da forma como havia sido pensado. Outras parcerias foram firmadas com a Secretaria Municipal de Educação, que fornece o transporte duas vezes por semana para conduzir as crianças da Escola Urbana até o Assentamento que fica distante 10 km do centro da cidade. A Secretaria Municipal também fornece a merenda escolar para as crianças durante a realização do projeto. A Secretaria Municipal de Agricultura e Economia Solidária vai contribuir agora, com a participação de uma técnica especializada que irá nos orientar na montagem do Relógio do Corpo Humano.
AE - Depois de o projeto ter sido escolhido como um dos vencedores, quais foram os maiores desafios para implementá-lo?
MH - Para mim foi uma grande surpresa ter o projeto escolhido entre as centenas de outros projetos que estavam concorrendo. Isso traz uma felicidade e um reconhecimento muito grande do trabalho que me propus a realizar na implementação deste projeto. Mas ao mesmo tempo trouxe uma responsabilidade e um desafio muito grande na implementação do mesmo. Aí destaco a participação ativa da Diretora da Escola Municipal Pio XII, Simone Barbieri, que me auxiliou muito na interlocução com a Secretaria Municipal de Educação, em relação ao ajuste do transporte dos alunos participantes do projeto, bem como em relação à merenda escolar. Outro desafio foi a confecção de uma cartilha pedagógica com mais de 100 páginas contendo atividades lúdicas sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável que construí e utilizo nas aulas teóricas com os alunos.
AE - Foi necessário fazer adaptações no projeto original? Como isso ocorreu?
MH - Sim, alguns ajustes se fizeram necessários em relação ao que o projeto original previa. Por exemplo: Prevíamos que o projeto ocorresse de forma integral no Assentamento 30 de Maio, ou seja, durante quatro manhãs, uma turma da Escola Urbana iria até a Escola Rural e, num primeiro momento teria as aulas teóricas na própria escola do assentamento. Faria um lanche e depois iríamos realizar a parte prática na horta da cooperativa. Contudo, devido a complicações em relação ao transporte das crianças, tivemos que adaptar a ida ao assentamento em apenas duas manhãs, onde então, são realizadas somente as atividades práticas e, as atividades teóricas ocorrem no turno da tarde, em horário regular das aulas dos participantes do projeto, na Escola Municipal Pio XII. Essa foi a adaptação mais significativa que tivemos que realizar em relação ao que o projeto original havia proposto. Contudo, esse fato não prejudicou o andamento das atividades previstas, sobretudo a parte prática que está sendo realizada com muito êxito pelos participantes do projeto.
AE - Quais foram os principais benefícios desse processo para a escola? Provocou transformações nos alunos? No corpo docente?
MH - Podemos falar em benefícios para as duas escolas envolvidas no processo do projeto. Em relação à Escola Municipal São Francisco de Assis, além da integração que ocorre entre os alunos do assentamento com os alunos da cidade, propiciando troca de saberes e a formação de novas amizades, existe o fato de que a Escola do Assentamento ganha projeção no município em relação à possibilidade de formar convênios, parcerias e receber projetos futuros que permitam a consolidação da mesma como um referencial na constituição de um laboratório de desenvolvimento sustentável e de projetos que envolvam a preservação do meio ambiente. Já em relação à Escola Municipal PIO XII, os benefícios para os alunos começam ao entrar em contato com a Escola Rural, onde não existem grades e muros ao redor da mesma, mas sim muitas árvores e verde. Ali nota-se que as crianças da cidade passam a ter um contato mais próximo com a natureza, desde a observação que fazem de animais e vegetais que vem, até a forma como brincam com a natureza, subindo em árvores, e fazendo trilhas por meio de uma plantação de eucaliptos até chegarem à horta onde realizam suas atividades de plantio de hortaliças e dos cuidados com a composteira. Em relação aos benefícios para a escola, percebe-se que os pais dos alunos são muito receptivos ao projeto e muitos acompanham seus filhos até a escola, pois perceberam que os alunos deram um retorno positivo das atividades que realizam no assentamento. O projeto vem provocando transformações nos alunos, sobretudo na forma de pensar a natureza e perceber que os recursos naturais que utilizamos são escassos. Alguns alunos até mesmo iniciaram hortas caseiras no quintal de suas residências. Em relação ao corpo docente, muitas professoras que não estão envolvidas no projeto, conversam comigo e perguntam como poderiam fazer para que seus alunos pudessem participar. Outras gostariam de fazer seu estágio do curso de pedagogia participando do projeto. Percebe-se que o projeto tem uma boa receptividade tanto no corpo docente, como na comunidade escolar como um todo, o que o credencia como um projeto que tem todas as possibilidades de ser implementado de forma definitiva pelas escolas participantes.
AE - Existem perspectivas de continuidade do projeto para além do que o Prêmio permitiu realizar?
MH - Sim, existem grandes perspectivas de o projeto ser efetivado pela escola como um projeto que apresentou resultados positivos para além do que era esperado. Como o projeto já possui as ferramentas necessárias para a continuidade do mesmo, o único investimento que precisa ser realizado para a continuidade do mesmo, é a confecção de novos cadernos pedagógicos e a compra de novas sementes para o seu plantio no Assentamento. Basta firmar uma pequena parceria entre as escolas e alguma empresa do município. Da parte da Secretaria da Educação, bastaria que a mesma continuasse a disponibilizar o transporte e a merenda escolar para os participantes do mesmo. Então, além dos benefícios conquistados pelo projeto, ele vem demonstrar que é possível implementá-lo como uma política de formação de estudantes e comunidade escolar para o desenvolvimento sustentável.
AE - Que dica você daria para quem está construindo um projeto em 2009?
MH - Em primeiro lugar, as escolas que querem inscrever seus projetos devem ter como foco o beneficio que o mesmo pode trazer a curto, médio e longo prazo para a comunidade que irá se beneficiar com a implementação do mesmo. A temática a ser escolhida deve estar em consonância com a realidade local, ou seja, deve-se ter a sensibilidade de perceber qual é o problema emergente que merece o envolvimento e o aprofundamento da comunidade escolar: se uma horta comunitária, se de limpeza de córregos e riachos degradados em função do lixo, se em propostas de desenvolvimento de geração de renda através de projetos de economia solidária, como confecção de sabão caseiro, produtos de limpeza, padaria comunitária, enfim, a escola deve perceber a principal problemática que atinge o seu entorno e procurar resolvê-la através de uma proposta que seja transformada em projeto e enviada ao 2º Premio Minha Comunidade Sustentável 2009.
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